Mês: Setembro 2016

Redemoinho

Redemoinho

Eu quero amor e quero amar.

Eu quero abraço e quero abraçar.

Eu quero atenção e quero cuidar.

Eu quero algo que alguém também possa me dar.

 

Da mesma janela, o mesmo céu e sol.

Quem enxerga o que eu vejo, onde está?

Cheia de cargas, cicatrizes e e escavações de tamanha profundidade,

Tenho a grande sensação que não está em lugar nenhum

A intensidade, o extremo que desejo

O que quero, não consigo e ninguém pode me dar.

 

Segue andando quase sufocada de palavras,

Aprisionada na grade do próprio orgulho

Não fala, não diz, esconde e se contradiz

Quer a justiça, tem inveja e soberba.

Precisa ter tudo e salvar a todos,

Só não salva a si mesmo, tola.

 

 

 

 

A inútil espera

A inútil espera

O telefone toca ,- o que nos dias de hoje, é raro -, mas é só a operadora ou esses malditos números de outros estados tentando dar golpe. Suspiro, porque esperava ser você. Sim, eu ainda espero. Continuo aguardando uma palavra qualquer, aquela atitude idiota que tenho de criar expectativas por pessoas que não dão a mínima. A sensação de que eu é quem deveria falar alguma coisa, mas o sentimento de que se você quisesse, já teria feito. Sinto-me como se meus pés estivessem colados no chão, pois nada do que eu já tenha tentado me tira deste lugar, o limbo, a fila interminável de espera.

Eu olho para os lados, atravesso a rua e penso em você. Fico aguardando sua chegada, o meu abraço, as suas desculpas…mas nada disso nunca vem. Nem você e nem ninguém vem, porque existe uma diferença entre se dizer importar e realmente mostrar isso. Aprendi da pior maneira que ao romantizar nossas memórias juntas também lhe romantizei. E quando se idealiza uma pessoa tudo o que se tem é a decepção. É culpa minha por ter feito isso e culpa dela por não notar que tudo o que eu precisava era nem metade do que poderia me dar.

Existem esperas que duram 1 dia, 2 semanas ou são interrompidas pela a morte. No entanto, há a espera eterna; aquela aonde só você está esperando.

Sejamos máquinas

Sejamos máquinas

Abra os livros. De preferência, os que possuem números ou nomenclaturas. Eles querem que você saiba fórmulas e não história, estão com medo de quem pensa e possui opiniões. Eles lhe dizem que precisa de saber de tudo, é dever seu suprir o que não lhe foi oferecido durante anos, é obrigação sua correr atrás. Enchem nossa cabeça, nossas mentes e cérebros com milhões de opções, mas só valorizam as padrões;

bisturi, laboratórios, planilhas ou julgamentos. Siga isso, estará no topo do mundo… ou apenas fracasse, que é o que todos os outros caminhos te darão em troca.

Apague suas luzes, seus celulares, sua TV, sua vida social. Pare de ver seus amigos, os seus familiares, o sol, o céu, pare de ter normalidade. Sacrifique 1 ano da sua existência, talvez 2 ou 3 se você for burro e não conseguir. Seja um robô, aprenda as normas para escrever uma dissertação, na qual só escreverá o que querem ouvir e não que pensa realmente. Deixe de aprender, decore. Mil folhas de exercícios, mil frustrações… porque você não aprende, não consegue e se sente burro, sente-se incapaz. Te dizem que é insuficiente, te fazem pensar que ser bom em marcar caixinhas lhe faz inteligente. Doutrinação, pressão, móveis voando e gritarias;

você não tem futuro, cospem as palavras.

Heróis que sacrificam suas vidas, as horas de suas vivências. 12, 13 horas e até 16. Heróis ou escravos? Vítimas de um sistema que menospreza a arte, a história, o esporte, o cinema. Vai morrer de fome, te falam. Alguém com os sonhos que não deram certo tentando fazer com que você desista dos seus. Não vai dar certo.  Geometria, Estequiometria, Log, se você não aprende é burro, não se interessa, vagabundo. Não tem nada a ver com a sua dificuldade, é só falta de esforço e dedicação. Não vai ser nada no futuro, mas tudo bem; temos que ter faxineiros, frentistas, caixas. E eles desistem, não querem, se frustram, vagam e existem, até o último dia da sua vida. E por quê? Alguém disse que não eram capazes.

Entupa sua mente de coisas que nunca vai usar. Você tem que saber de tudo. Se mate, se esforce ou não terá opção. Ela é brilhante, tira notas excelentes mas e você, quem é mesmo? Não estão pedindo para que saiba, querem que decore e que passe. Seja uma máquina, um computador, um robô.

No final disso tudo, seremos felizes, não é?

 

Saudade

Saudade

Nunca sequer houve alguma palavra que traduzisse saudade com o mesmo significado que tem em português. Isso porque não há nenhuma que substitua a intensidade da saudade e descreva a dor que ela causa quando presente. Sentir saudade na verdade, é como ver algumas memórias se juntarem a uma imensidão de coisas que nós já vivemos e causarem a sensação de que jamais as teremos novamente. É ter a impressão de que a partir de um determinado momento alguém que carrega informações preciosas sobre você, é capaz também de tornar-se um completo estranho.

Sinto saudades da minha infância, de ser ingênua, acreditar em papai noel, em magia e crer que eu podia fazer qualquer coisa. Sinto saudades de não ter vergonha do que iam pensar de mim, nem de me incomodar em ficar sozinha ou de parecer boba, porque quando se é criança não se tem noção do que é certo ou errado, apenas sabe-se que aquilo lhe faz feliz. Sinto saudades de poder correr pra cama dos meus pais quando tinha um pesadelo ou de me permitir fraquejar, chorar, de ter não ter que ser madura o tempo inteiro e de não ter que encarar tanta pressão. Sinto saudades de quando a vida era mais bonita e de quando não sabia o que eram guerras.

Sinto saudades dos que já se foram, das presenças que aqui deixaram dores e nostalgia. Sinto saudades das coisas que os faziam únicos e que hoje são apenas fragmentos de memórias que me fazem sorrir. Sinto saudades da rotina a qual eles faziam parte, da mínima normalidade que pensava ser entediante mas era extraordinária. Sinto saudades daquilo que só eles sabiam pareciam fazer e da luz que trouxeram pra mim. Sinto saudades de quem a vida levou, de quem o céu nos tirou e de quem a saudade insiste em meu coração apertar.

Sinto saudades de quem eu vejo todo dia, das pessoas que sabem os meus pequenos segredos e das coisas que me fazem ser o que sou, mas hoje já não fazem mais parte da minha vida. Sinto saudades das risadas, das brigas que acabavam com uma piada e de só passar o tempo em silêncio, sorrindo. Sinto saudades das piadas internas, dos fatos que apenas nós sabíamos e das implicâncias. Sinto saudades de estar ao lado por estar, de receber carinho e dar carinho ou de simplesmente de estar lá. Sinto saudades de perder a noção do tempo, rir por coisas idiotas e me sentir um pouco menos sozinha. Sinto saudades de quem me deixou ir, de quem deixei ir ou de quem simplesmente a falta de assunto afastou.

Sinto saudades de momentos, sinto saudade de quem está distante e significa muito mais do que quem está perto. Sinto saudades de ter algo pra me segurar, de não ter que pensar tanto no futuro ou de só sentar-me e não fazer nada. Sinto saudades de não ter que saber o que quero pra minha vida inteira e nem daqui a 10 anos.

Sinto saudades até do que nunca tive.

Saudades.

2 anos

2 anos

Estou me arrastando e o chão está frio. Duas grandes figuras sorriem pra mim com seus tijolos gigantes e depois olham um para o outro. Não entendo nada, mas tenho certeza que isso é cheiro da coisa vermelha. Eu amo vermelho. E enquanto o aviãozinho entra na pista de pouso que é minha língua, lampejos e ruídos atravessam meus ouvidos. Acho que nunca ouvi isso antes, nem ao menos enxerguei, mas sei que é bom porque estou me mexendo sem querer mexer. Finalmente consigo fazer a figura emitir algo engraçado e me envolver nas suas longas ferramentas presas ao próprio corpo. Começo a segui-los para onde vão, afinal sabem de tudo.

É macio, feupudo e as suas duas ferramentas presas ao corpo são diferentes do daquela figura estranha, que usava o que possuía na cabeça totalmente pra cima. A outra gosta muito de oferecer a coisa vermelha, por isso o sigo mais. Tudo pra mim é visto de baixo pra cima, tudo pra mim é maior de mais.

E eu ainda engatinho por todo lugar.

Talvez um dia

Talvez um dia

 

Talvez um dia não tenha mais raiva deles, nem queira dar-lhes um soco. Talvez um dia não me lembre de suas palavras cruéis, as facas, as lanças que até hoje me ferem. Talvez um dia esqueça os apelidos. Talvez um dia não me lembre mais da sensação de estar quebrada, escura e oca por dentro. Talvez um dia eu não me recorde mais dos olhares de nojo sobre mim. Talvez um dia não me sinta mais como naqueles mesmos dias. Talvez um dia.

Talvez um dia nós possamos parar de gritar e ferir. Talvez um dia você parará de jogar suas pedras sobre mim, só porque jogaram em ti. Talvez um dia compreenda que apenas precisa ouvir mais. Talvez um dia perceba que ela só quer sua atenção. Talvez um dia voltemos a sair de novo como era antes. Talvez um dia consiga enxergar que sou capaz. Talvez um dia fale de mim sem citar as palavras “não” e “não acredito”. Talvez um dia sejamos unidos. Talvez um dia.

Talvez um dia consiga olhar para você e não sentir raiva, não lembrar e nem remoer nada. Talvez um dia essa dor incômoda passe, a mágoa desapareça e a saudade que me causa se dissipe no ar. Talvez um dia o seu sorriso com outro alguém não me incomode e nem me tire algumas noites de sono. Talvez um dia não me sentirei sufocada na sua presença. Talvez um dia não tenha mais a sensação de estar despedaçada, sem parte de mim e um terço das minhas memórias. Talvez um dia.

Talvez um dia ele seja mais nítido. Talvez um dia eu seja capaz de encará-lo. Talvez um dia não seja tão assustador. Talvez um dia esqueça as palavras das quais levei como verdade. Talvez um dia goste do que vejo. Talvez um dia.

Talvez um dia tenha finalmente te perdoado

Me perdoado.

Talvez um dia.

 

É tarde demais

É tarde demais

Quando as luzes se apagam você resolve valorizar a luz, sentir falta do brilho que o iluminava.

Quando a chuva caí você sente falta do sol, mesmo tendo reclamado dele a tarde inteira.

Quando o tempo acaba você reclama que não conseguiu, ainda que nem ao menos tenha tentado.

Você percebeu, se deu conta que é tarde demais? Andou por toda a estrada, percorreu todo esse caminho para finalmente notar o que já se foi?

Perdemos coisas, amores, pessoas. Abandonamos lembranças, sentimentos, momentos, mas nos queixamos do que não volta mais. Somos ingratos e questionamos o silêncio.

Você não lembrou da data de aniversário, não se esforçou para ter um pouco mais de paciência, não se deu ao luxo de desculpar-se, não superou o orgulho para tentar voltar atrás. Você não notou ou não descobriu ainda, mas é tarde demais.

É tarde demais para amar agora que já se foi, deveria ter amado enquanto estava aqui.

Você deveria ter estudado, deveria sim.

Você deveria ter dito, sim, deveria.

Sim, você deveria ter feito milhões de coisas mas não fez.

Agora é tarde demais.

 

O seu medo

O seu medo

Você tem medo. Medo até mesmo de ter medo. Esconde-se em cavernas, lugares com luzes apagadas. Tem medo da sua sombra, pois ela revela quem és. Inseguro, não introvertido mas sim tímido, em pânico por estarem lhe observando, julgando, apontando, formando ideias e comentários sobre tudo a seu respeito. Você nasceu, cresceu e vive com medo. Não te deram voz, não lhe deixavam falar, fizeram escolhas e decisões por você. Não era proteção, não era zelo, era só falta de confiança em você, egoísmo e ciúme do mundo, que logo, logo, lhe teria. Eu vejo você, ele e ela. Todos tem em comum um grande pavor de viver, algo interno sobre suas almas que os fazem ter tanta vergonha de si mesmos, que possuem uma bolha que os impedem de fazer de tudo o que os outros estão fazendo. Não essas baboseiras que dizem que é realmente viver; não estou falando de beber, escovar os dentes com pimenta ou voltar no sereno da madrugada pra casa, escrevo sobre arriscar. Arriscar com coisas pequenas, escolher opções diferentes do que você jamais faria até ontem ou mês passado, optar por café em vez de leite ou vestir um colorido quando só costuma usar preto. Começando por pequenos detalhes que parecem singelos, bobos ou desnecessários, mas que mais tarde virarão grandes detalhes, grandes pequenas decisões que você finalmente conseguiu tomar. Sabe… vejo um brilho no teu olhar, algo que grita querendo sair mas está em pânico porque ninguém te ensinou a falar ou andar por si mesmo. Quando lhe digo pra pegar um caminho diferente, berrar aos pulmões tudo o que precisa dizer antes que seja tarde, é pra fazer recordações, porque a vida é um grande álbum e a coisa mais triste do mundo inteiro é ver sua vida por álbum que não é seu, é contar histórias que você, sozinho, não teve. É apenas coexistir e lembrar de coisas que fazem parte da sua existência porque estão sendo contadas por outras pessoas. É, meu amigo… eu vejo o teu medo.

Ele é tão real que até criou vida própria.

Ele é você.

Vivendo em bolhas de ignorância

Vivendo em bolhas de ignorância

Em um dia de chuva, com as gotas escorrendo, apoiou a cabeça no vidro. Observou os prédios, o desenho deles e as linhas bem moldadas das construções. Viu também os arranha-céus e os arbustos em forma de bichinhos. Acompanhou pessoas com o olhar. Constatou que elas andam como formigas tentando juntar comida para o inverno e estão sempre correndo, brigando, gritando. Estão sempre com pressa. Tem tanta pressa que esquecem de olhar, deparar-se, importar-se.

Porém aqueles olhos viram. Viram moradores de rua desabrigados na chuva, cachorros que foram abandonados por donos que não se importam, vendedores ambulantes tentando ganhar a vida e driblar a oportunidade que lhes não foi dada, entregadores de panfletos que torcem para que alguém pegue seus papéis, pois assim como toda aquela gente que só está indo fazer o que é se necessário fazer, eles também estão.

Mas como todos outros, decidiu olhar pra frente, ignorar, seguir a vida. Era mais fácil esquecer, doer-se e sentir seu coração apertar, mas fingir que aquelas coisas não existiam. Seria duro demais conviver com aquilo e ter de aceitar que não pode fazer nada pra mudar, então diz a si que está tudo bem, não é culpa sua.

Porque ninguém se importa de verdade, eles só tornaram-se automatizados, robóticos, cabeças balançantes. Transformaram-se em soldados vazios que marcham em seus pequenos mundinhos cheios de problemas, esquecendo-se dos problemas bem maiores a sua volta.

 

Inteligência

Inteligência

Eu vejo números vermelhos, olhares decepcionados, palavras afiadas e descrença em todos os cantos. Vejo até desconfiança, o não acreditar de indivíduos que jamais me conhecerão em alma, mas mesmo assim me definem por algo que não determina o que realmente posso fazer.

Sinto evaporar a confiança que restava em meu corpo no momento em que, com com apenas um numeral, definem o que sou ou não capaz de fazer. Eles cospem os erros e passam por cima dos acertos porque segundo eles, não são os regulares que possuem o poder de mudança mas sim os acima da média. Ah, eles sim são brilhantes! Sugam conteúdos como robôs, absorvem dados em pouco menos de 60 minutos. Suas moradas chamam-se pedestais e eles são colocados lá por alguém que realmente acredita que meia dúzia de estrelas mostram o quão brilhante um indivíduo consegue ser.

Teorias, exageros de informações que sei que jamais irei utilizar. Habilidades subestimadas e jogadas para baixo de um tapete que esconde dons, sonhos, e pessoas não padrões. Porque sim, padrões são necessários para mover esta sociedade robotizada, que dá importância a gráficos, contas e longos períodos de tempo gastos para realizar problemas matemáticos, mas esquecem-se de olhar para a arte. Tudo o que amam, dentre a música e o cinema.

Julgam os que preferem pintar ou fazer sons, enaltecem os que estão por aí fazendo impostos de renda mas desvalorizam os que formam cidadãos. Triste ambiente, triste mundo, triste sociedade que constrói a capacidade baseada no que é visto de forma porca e mastigada, para depois gritar que formou melhores pessoas, mas apenas forma adultos conformados e avessos ao conhecimento, porque aprenderam a não aprender e tornaram-se atores; decoram o texto para logo depois esquecê-lo. É como uma cena, um capítulo que jamais lembrarão novamente.

Ainda que possam lhe dizer o contrário, seu QI está no modo como você transforma as coisas a sua volta, nas sensações que causa nas pessoas e nas ideias que possui para mudar o mundo. A inteligência não é o conteúdo da prova e sim o impacto que tem com os que se relaciona. Inteligência não está no que pensa, mas no que muda de acordo com o que sabe sobre a sua existência. Ser inteligente é trabalhar em grupo e utilizar o seu conhecimento em prol do próximo. E por fim, a inteligência é simplesmente saber que você nunca sabe o bastante e tem sempre, sempre algo a aprender, mesmo que seja com o que pouco sabe.

 

%d bloggers like this: