Mês: Setembro 2016

Duas faces

Duas faces

Estrada longa sobre a luz fraca.
Nesta falha iluminação eu a vejo,
Escondida, oculta, relutante.
É a parte que embrulho, o lado que afasto.
É um quarto e dois terços,
É a volta completa e a metade de uma.

Mira e planeja atirar,
Sem coragem, desiste.
Ainda sim,
Anda sobre a poeira e diverte-se com os que a subestimam
Porque todos eles
Donos da pureza;
Jamais seriam como ela, a garota refém de si mesma.

Caverna profunda, um buraco sem extensão
Tem medo de mergulhar e encontrar o que não quer,
Criaturas que não consegue enfrentar
E filmes que não pode rever.
Em guerra com os pensamentos
No alto de uma colina,
Ela quer pular, mas tem medo de não sobreviver.

Passa em cima como se fossem nada,
Mas são parte dela.
Alimenta um bichinho cuja a comida é memórias
E as que já se foram e ainda estão lá,
Ela quer ter certeza que eles também vão se machucar.

Desculpe-se e ajoelhe-se, pecadora.
A que enxerga branco mas sente preto
E guarda em caixas coisas que nunca dirá.
A que quer ter também, mas não pode assumir
E que tem brinquedos e não gosta de dividir.

Sobre a camada que veem e o que não permite que enxerguem,
Está lá, coberto por uma grade que as separa.
Eu a vejo,
Consigo ver seu reflexo na superfície de vidro
Porque ela sou eu
E eu sou ela,
A parte de mim que quer sair mas nunca se revela.

O Tempo

O Tempo

Ele voa, não volta, ao mesmo tempo que o temos para sempre podemos nunca mais possuí-lo. Nós o amaldiçoamos e ás vezes o agradecemos por existir. É o tempo, o salvador das nossas memórias e curador das cicatrizes de cada dia. O que passa rápido e nos trás arrependimentos por não tê-lo aproveitado. Deveríamos, mas não pedimos desculpas por desperdiçá-lo com tantas coisas desnecessárias. Pessoas tóxicas, auto sabotagem, persistência em erros, palavras mal ditas, as não faladas e os gestos que poderiam ter sido evitados e acabaram tirando a capacidade do nosso tempo passar depressa.

Mas será que o tempo não nos deve desculpas também? Afinal ele nos tirou oportunidades, nos atrasou para compromissos, nos fez perder chances importantes e nos tirou quem amamos. Ou será que poderíamos ter evitado? Nós humanos, tão evoluídos e donos dos nosso tempo… é o que achamos.

Nós é quem deveríamos aproveitá-lo mais, dizer mais, amar mais, demonstrar mais, realizar mais, sonhar mais, recordá-lo mais. Ele nos ajuda, nos ampara quando ninguém pode ou não está. Ele nos ajuda a nos curar, apesar de dar uma demorada. O tempo é generoso quando dá a chance de fazermos coisas memoráveis, mas é cruel quando nos faz peguntar para nós mesmos como teria sido.

Seja como for, não perca o seu.

Viva a vida

Viva a vida

Saia de casa, beba, fume, se drogue, faça sexo, conheça estranhos, ande de montanha russa e tenha um amor de verão, de inverno ou de todas as estações, se preferir. Viva.

É o que o tumblr diria. É, possivelmente, o que aquele seu amigo baladeiro lhe aconselharia. E provavelmente é o que mais se acha em frases feitas das redes sociais. Mas e então, já fez isso tudo? Garantiu que tenha vivido o suficiente antes de morrer? Como não?

Alguém já te falou que você não vive?

Essa é a vitrola dos tempos modernos, mas meus pais não a conhecem. No entanto, eu mesma, logo eu que amo palavras, já fui entediada por elas. Todas essas insípidas e vazias orações que enchem meus ouvidos. As que foram jogadas contra mim porque prefiro um livro a um copo de vodca. Acredite, não foi a primeira vez ou segunda e nem será a última.

Eles nos classificam com adjetivos como paradões, lerdos, sem graças, bichos do mato -são muitos nomes, fique à vontade para escavar um em sua mente.

Os justiceiros com várias experiências de vidas e memórias incríveis. São melhores que nós porque vomitaram no tapete e alguém filmou isso. Ficaram chapados e felizes. Fizeram sexo com alguém cujo o nome não se recordam… ou não sabem. Estamos desesperados, suas almas gritam, mas se recusam a dar-las atenção.  Querem fingir dar um propósito para sua existência enquanto estão ocupados enganando a si mesmos. Nos dizem que são felizes, mas se esforçam para realizar algo que nem lembrarão no dia seguinte. Viver? É sério?

Também existem os que julgam-se cultos, sentados no sofá com o bolso ou o núcleo de amizades vazio, enquanto escapam do mundo com personagens fictícios. Gritam, choram, sofrem e brigam por alguém que não existe. Um indivíduo que talvez seja mais humano do que os que os cercam. Saltam de páginas ou telas para abraçá-los em seus vazios existenciais, fazendo- os  esquecerem-se da falta de amor à vida que possuem.

E o que é certo? Eles gritam, divididos por uma parede. Carregam seus ideais em suas almas com o mesmo propósito; preenchê-la, enchê-la de algo que sua realidade, as pessoas ou eles mesmos não podem. Querem berrar que não sabem porque estão aqui, mas todos já sabem. E também não sabem que cada um decide o que é melhor. Vodca, livros, personagens, talvez tudo, só um ou nenhum deles. Ninguém está certo ou errado, apenas os que pensam que o seu ideal é o melhor e rebaixam os que não o seguem.

Cada um desses tem uma visão própria, salvo os que se deixam serem guiados por outras visões. Você olhará algumas, discordará e partirá para outras, mas sempre mantendo a sua própria. E quem não aprovar a paisagem que você escolheu manter, que saia fora e procura outra. E vice-versa, porque isso também vale pra você.

 

Banalize à vontade, afinal ele é seu.

Banalize à vontade, afinal ele é seu.

 

Positividade, confetes e cores, milhares delas.  As invejáveis cores vibrantes que brilham por aí e espalham alegria pra todo mundo. Será mesmo? 

Ah e o sorriso? Largo, único e cheio de amor.

O amor… alguns propagam-o discretamente, não se incomodam em não amar o coletivo porque deixam claro que pra eles não é banal. Outros são assim, não amam, mas também não odeiam. Inconstantes, bizarros, independentes ou indiferentes. Amam a si mesmos. Amam ninguém. E os que amam muito. Ah e como amam! Incapazes de soltar uma faísca de ódio, cheio de cores, arco íris e pirulitos, incrivelmente desprovidos de negatividade. Como não amá-los?

Ninguém os conhece, é bem difícil realizar este feito. Rastejando por aí, obtendo pequenas coisas de cada um e guardando para si mesmos esperando a hora de usar. São confiáveis ou fingem ser. Talvez sejam realmente ingênuos, mas tiram do sério com essa mania de achar que todos acreditam no que pregam. Eu poderia, mas não creio nessa banalização exagerada.

Alguns notam, talvez todos tenham percebido, mas não ligam. Eles não ligam porque ninguém pode impedir que essas pessoas existam. Ainda que irritem, por mais que não enganem, o amor é deles e é direito de cada um usá-lo como quiser.

Mesmo que seja o amor. Apesar de o mundo está cheio de ódio e ele nunca ser demais, só aceito o que realmente é dado de forma espontânea e não feito para que eu goste de quem está me oferecendo. Não é algo que eu preciso se não for ofertado de coração. Porque não acredito que amar está em perguntar se está tudo bem e sim fazer de tudo para que fique. Ser gentil não é amar, ser gentil é ser gentil.

Ás vezes, em alguns momentos escuros da vida, eu me perguntava e se eu amasse assim?

Se eu fosse assim?

Bom…então eu não amaria ninguém, porque quem ama todo mundo não ama ninguém.

Geração do não amor

Geração do não amor

Não é mais interessante, isso já é velho. Estou tentando ajustar-me com os novos memes, expressões, pensamentos e ideais. Talvez eu não faça parte dessa geração, nem sei ao menos o que significa ser uma tumblr girl, então acho que estou na vantagem.  Sinto-me muito perdida e deslocada. Tenho minhas questões existenciais, meus medos e anseios, mas ás vezes possuo a sensação que estou fora desses padrões. Esses padrões de não quero absolutamente nada, não sou ninguém e não mereço esse mundo. É tão estranho como ao mesmo tempo que não me sinto parte disso, ainda sim estou incluída. Luto ferozmente contra essa vontade de desistir de mim mesma. Uma vontade que todos parecem ter adotado para as suas vidas.

Não, eu não sou assim. Mesmo que tenham me ensinado que o amor é errado, ainda quero amar.

Eles nos dizem que somos o futuro do mundo. Erguem os punhos com a esperança de que podemos mudar, mas como fazer isso se nem ao menos sabemos quem somos? Vivemos cercados de máquinas e tanta tecnologia que dizemos dominar, mas acabamos sendo dominados por ela. Na palma da mão temos tudo o que quisermos, porque as coisas mudaram. Não olhamos mais nos olhos e nem sorrimos cara a cara. Estamos presos em uma realidade limitada a uma tela. Aprisionados dentro de nós mesmos. E a única “face” que vemos são fotos distorcidas de nós.

Gritam a falta de amor e a de esperança. Marcha uma geração que aprendeu a se frustrar com pequenas coisas e carregar o peso de ser a mudança, mas é jovem demais para entender tanta possibilidade. Ensinam-nos como fazer equações mas não nos ensinam a nos amar. Perdemos o respeito pela a nossa auto imagem, pois nesse século, nada que não seja menos que perfeito será aceito. Somos todos perdidos que não foram incluídos. Temos tanto medo de não sermos vistos, que nos tornamos as piores versões de nós. Eles nos veem e não nos veem, porque não somos nós.

Livros jogados e mentes mergulhadas em mundos fictícios. Amamos a fantasia porque nela podemos nos esconder e esquecer a monótona realidade. O vazio que cerca nossa existência juntou-se adentro de nossas almas, transformando-nos em indivíduos sedentos por um mundo que não seja o nosso. Um mundo que dê certo. Somos desinteressados, muitas vezes, nem nos esforçamos. A alienação à vida adulta é grande e pensamos que a juventude é eterna. Ou, bem, pelo menos fingimos que é. Além disso, a maioria de nós não liga. Grande parte não se importa de simplesmente existir. Lutamos por causas certas mas de formas erradas. Dizemos que respeitamos mas odiamos o diferente. Espalhamos o ódio com o intuito de termos razão, mesmo que signifique ferir alguém.

Temos medo. Medo de amar, medo de arriscar e medo de sofrer. Eita, esse medo! Pra que? O que tanto tememos? Este medo da dor instalou-se em nós e alojou-se em nossas peles. Estamos em pânico, apavorados por estarmos sentindo. Queremos nos molhar mas temos medo de sair na chuva. Nós somos imediatistas, superficiais e apaixonados pelo o agora. Somos a Geração do Não Amor.

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