Mês: Fevereiro 2017

E eu, que nem te amei? 

E eu, que nem te amei? 

Número 1. Ele era engraçado, folgado,  tinha umas bermudas de surfistas e uma aparência legal. Para alguém de 12 anos,  é claro. Eu fingia que o odiava e ele fazia de conta que não curtia andar de mãos dadas comigo. Isso tudo, obviamente, para manter nosso romance ás escondidas. Eu, ingênua e avoada, salpicada por uma pitada de autoritarismo infantil. Ele, malandro e charmoso, acompanhado de um certo tempero de bad boy, do cara que precisava ser salvo.

E cabia a mim, a menina mandona que criava regras para o pique-pega, tirar um pré-adolescente de seu limbo. Foi disso que tentei me convencer, pelo menos. Até ele desaparecer e voltar 7 anos mais tarde, pedindo uma foto para ver se valia a pena reviver os velhos tempos.

Me pergunto se não era eu quem devia ser salva.  Dele.


Número 2
. Baixinho,  magro e desengonçado. Três adjetivos que se encaixam nos esteriótipos – escrotos,  diga-se de passagem – para uma rejeição imediata no Ensino Médio. No entanto,  para o meu eu de 16 anos, era apenas mais um menino crianção que, lá no fundo, tinha um lado incrível escondido.  Lado esse, que ajudaria a provar minha tese imaginária. Uma tese que dizia claramente; ele precisa ser salvo da opressão social, desses amigos bostas e da necessidade de aceitação dele. E para todo veneno, há o antídoto. E eu era esse antídoto.

 Com graça e falso carisma, conquistei os amigos dele. Comecei a ouvir linkin park – o único ponto positivo disso tudo, aliás – e tentei até assistir uns vídeos de batalha de rap no Youtube.

Após desenvolver uma amizade interessante e construída por dois opostos – o perdido e a menina salvadora – todo o processo foi por água abaixo. Ele devolveu o amor com ignorância, e,  do dia pra noite, não olhou mais para a minha cara – até o carnaval do ano seguinte, quando fingiu que não foi um completo babaca.

Número 3.  Baseado em meu gosto por caras estereotipados pela a sociedade,  o terceiro menino era a personificação do não atraente, o não desejado. Entretanto,  isso não parecia realmente me incomodar. Não foi um processo mais rápido que os outros, mas aconteceu.

E mais uma vez,  mediante ao meu desejo de querer consertar pessoas – mesmo que não precisassem ser consertadas – eu desenvolvi uma queda por uma pessoa improvável. E essa pessoa improvável estava por perto, ria comigo e fazia parte da minha convivência como qualquer um ali.

Não havia sequer uma possibilidade de ser recíproco, mas minha mente decidiu que eu deveria gostar dele e tentar fazê-lo se abrir com alguém, porque no fundo, queria ser responsável por aquilo.

O final foi tenebroso e cheio de mágoas. Minhas,  é claro. Até por que, não acredito que um dia ele realmente deu a mínima pra mim.

Eu queria salvá-los,  consertá-los e mudá-los. Tinha a vontade interna de ser aquela garota que vai mudar o cara e fazê-lo enxergar que é um babaca. Queria poder apertar seus parafusos, como se pessoas fossem bonecos.  Queria ter a possibilidade de receber amor, então teria esse amor de volta.

Eu achava que havia algo de errado com eles – e talvez houvesse, de fato – mas não enxergava que não cabia a mim moldar indivíduos só para que se encaixassem em meu ideal perfeito. Afinal,  isso não é amar, isso é não se amar.  Isso,  meus amigos, é viver de amores inventados –  como Cazuza.

É procurar desesperadamente o amor dentro de si e não achar.

É fingir que não há vazio, mas ao mesmo tempo, tentar ocupá-lo com quem quer que seja.

Daqui do meu castelo

Daqui do meu castelo

Eu sou da realeza. Nasci em um berço enfeitado de mantas de tecidos brancos e de seda. Meu lençol protegia-me do mundo como uma bolha e minhas meias impediam-me de ter frio. Também haviam passarinhos acima de mim, pois eles eram atraídos pela a luz. E estava sempre claro, até quando lá fora escurecia. Eu só via nuvens em minha volta e pequenos brinquedos. Era tudo tão lindo e perfeito, pois a janela estava sempre fechada. Algumas vezes, no meio da madrugada, gritos e choros ecoavam. Eu tinha certeza que eram os anjos lá fora. Pelo menos, foi isso o que meus pais falaram.

Um dia, minha meia foi tirada. Eu passei a sentir frio nos pés durante a noite. Depois disso, as nuvens deram lugar a uma cor pastel sem graça na minha parede. Os meus passarinhos voaram – segundo mamãe – e tornarem-se um abajur sem graça, cujo o objeto fica cima de uma superfície de madeira com puxadores. Além disso, a fresta da janela agora encontra-se aberta e eu ouço os gritos mais fortes. Entretanto, minha avó falou que eram só os anjos me abençoando.

Está mais escuro e a janela fica o tempo todo aberta. Os choros não param e os pedidos de ajuda,  muito menos. Os meus brinquedos estão sempre dormindo agora – meu irmão me disse – e o meu lençol está sempre lavando. Eu o imploro de volta, mas ninguém me escuta. Eu grito pelo os meus brinquedos, mas todos me ignoram.

Até que um dia, entediado e com minha cabeça latejando, eu resolvi deixar de lado todos os papéis a minha volta e pedi aos anjos uma ajudinha. Eu sabia que eles me ajudariam. Eles tinham que ajudar.

Então, com muita dificuldade, subi na minha cama para olhar o que tinha na janela.

E naquele momento, eu vi a visão mais assustadora da minha vida.

Haviam milhões de crianças, assim como eu, vestidas de cinza e com as costas encurvadas, chorando e implorando para os anjos trazerem seus brinquedos e lençóis de volta.

 

Se não sangra, não fere

Se não sangra, não fere

Quando seus corpos congelarem e seus pés não puderem mais caminhar, peça para que levantem.

Quando seu olhar para no nada e o sorriso encontrar-se vazio, diga para que assistia um filme ou saia com amigos.

Quando o peso no peito derrubar e o gosto salgado do pranto inundar toda a sua face, sugira que se acalme.

Quando o ar faltar nos pulmões e sair pela a porta parecer impossível, pergunte se não está exagerando.

Quando afastar todos em volta por medo dos julgamentos e sentir-se como uma madeira oca, apenas fale que positividade resolve tudo.

Porque os machucados da alma são exatamente como os da pele; basta colocar um band-aid e estará curado

Aceitar sim, mas conviver não?

Aceitar sim, mas conviver não?

Imagine um mundo onde tudo é azul. O mar, o céu, a terra, a grama, os animais e até os objetos. Ninguém nunca viu outras cores, outros padrões ou texturas. Agora pense se, de repente, os nossos olhos pudessem enxergar o vermelho, o rosa, o roxo, o preto? Será que as pessoas conseguiriam lidar e se acostumar com o fato de haver outras cores, não só o azul?

É assim com opiniões, com valores e ideais.

É assim com os relacionamentos.

Dizem que conviver com pessoas que pensam diferente de nós, é, não só necessário, como também essencial. Entretanto, existem opiniões opiniões. 

O jeito que pensamos e vemos o mundo diz que tipo de pessoa nós somos. Assim como a forma que tratamos os que estão a nossa volta, também mostra nosso caráter. Ás vezes, as divergências tornam-se fortes demais para serem sustentadas. E é aí que você descobre que na prática, não é fácil aceitar o que o outro tem como ideal.

Mas e se o ideal do outro vai contra os seus princípios? E se os seus valores se recusam a permitir só a ideia de conviver com alguém que, no geral, tem pensamentos que vão contra tudo o que você acredita?

E se aceitar for totalmente diferente de conseguir conviver?

Ainda procuro a resposta.

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