Mês: Março 2017

Suzana

Suzana

Suzana, por que você não me ouve?

Olhe nos meus olhos e me diga que compreende,

e se não puder, minta.

Suzana, você é quem deveria me dizer que está tudo bem,

quando ninguém mais diz.

Em vez disso, faz ficar pior

porque nós não sabemos como resolver nossas diferenças

e gritamos para nos entender.

 

Inconsequente.

Eu, que sou jovem e livre demais

não quero te ouvir.

Você, retrógrada, cheia dos seus ideiais do passado

que perpetuam e te impedem de ver

que estou quebrada e não consigo juntar os pedaços.

E termina de estilhaçar o vidro,

atirando contra mim, a sua ignorância.

 

Suzana, você não vê?

Nascemos todos como peças,

e vamos, aos poucos, sendo montadas por alguém.

Mas quando toda a montagem sai errada

tudo o que temos que fazer é nos desconstruir.

Suzana, estou cercada de muros.

Estou com medo.

Eles estão marchando.

Eles tem suas tochas e foices pra cima

e carregam o ódio para combater o amor.

 

Suzana, eu estou paralisada.

Os meus pés colaram no chão e eu não consigo respirar,

mas você grita comigo e de repente é um dos meus demônios,

porque assim como eles, você me faz sentir como se eu não merecesse esse lugar.

Suzana, eu estou gritando e você está surda, cega, muda.

Suzana, me ouça e pare de gritar,

antes que tudo fique em silêncio eternamente.

Nômade

Nômade

Escuro.

Está escuro aqui dentro.

dentro da minha mente

Onde passo a maior parte do meu tempo.

Talvez por isso, eu tenha feito dela a minha morada;

Já que lá fora só tem eco.

 

Talvez eu devesse abrir minha porta

e deixar a luz a entrar um pouco.

Mas então a iluminação me dará o deslumbre

das possibilidades e expectativas

Que me deixarão na escuridão novamente.

Não quero acender uma faísca,

porque faíscas causam explosões

e explosões causam destruições.

E estou cansada de desmoronar;

Para ter de me reconstruir depois.

 

A solidão é boa

quando é uma escolha.

Porém quando não se escolhe

E ao não ter escolha,

A sua única escolha é estar sozinho.

Então estar sozinho não é um privilégio

quando se não tem o que fazer,

A não ser estar sozinho.

 

Grupo, tribo, bando, comunidade.

Os que eu fui encaixada.

Os que eu só estava por estar.

Os que só me toleravam.

Os que nem me queriam lá.

E os que só queriam o que eu podia ter pra oferecer.

Eu procuro no dicionário e não significa nada pra mim.

Porque grupo significa coletivo e estar todos juntos

E estou exausta de gritar sozinha.

Isonomia

Isonomia

Microfone fechado.
Microfone aberto.
Está na sombra de quem um dia, fez de tua sombra.
E por anos falou, falou, sem parar para escutar.
Confundindo privilégio com lei natural.

O que incomoda é que estamos na mesma altura
ou que agora você não é o mais alto?
Sobe no caixote e diga o que lhe está entalada,
E joga na cara do mal feitor
A quem por séculos lhe calou.

Deixe subir no palanque, o dito cujo quer falar.
Não se conforma em não protagonizar
E quer tirar o protagonismo
de quem a voz silenciou.
Diga pra continuar a mexer.
Mexe a panela, mexe a sopa dos bons costumes, diz
Temendo que a muda finalmente resolva falar,
Acusa essa revolução como um meio de destruir a hierarquia
Que às suas necessidades, sempre priorizou.

Não é soberania, é equivalência.
É sobre deixar de ser só vista e apreciada
E passar a se apreciar e se ver.
É entender que mais ninguém pode falar por você.

Maturidade

Maturidade

Maturidade.
Falar um tom mais baixo,
quando o outro insiste em gritar.
Assumir sua responsabilidade
mesmo que seja mais fácil ter quem culpar.
Pedir desculpas
ainda que não haja garantia de perdão.

Perdoar aqueles que te machucam.
Aprender a sair da sua bolha e ouvir outra opinião.
Doar-se pra alguém independente da dor passada.
Usar a honestidade, mesmo que ela não te beneficie.

Melhor a verdade cruel do que uma mentira doce mal contada.
Maturidade.
Seguir em frente com o ego ferido.
E aprender a se sacrificar para alcançar o impossível, que é possível.
Saber que a tristeza é necessária
E que a palavra não consigo é só pra quem tentou demais,
não pra quem tem medo do fracasso.

Elefante Branco

Elefante Branco

Não conte pra sua mãe. 

Estamos trazendo uma filhote de cachorro escondidos.

É seu e do seu irmão. 

Acabamos de ganhar um computador só nosso.

Segure-se firme. 

Estou deslizando pelo o gelo e sua mão prende-se na minha.

E de repente, você não está segurando mais.

E de repente, fiquei velha demais.

E de repente, quero morrer.

E ninguém parece notar o quanto eu mudei

Nem você. 



Estou me escondendo,

mas quero que me amem.

Você está aparecendo demais

e quer que te amem.

Acho que pelo visto, nós duas somos iguais.

E então você desaparece.

O sol está surgindo quando você retorna

e nós não somos mais as mesmas. 

 

Você zomba do meu jeito

daquela piada que eu sempre ri,

Mas o meu escudo me defende e eu te puxo pra minha bolha;

E decido revidar.

Eu não acho mais engraçado.

Não sei se consigo explicar.

Então viro as costas e te deixo pra trás.

e nós não somos mais as mesmas. 



Há uma distância que não pode mais ser encurtada.

Há uma barreira que não pode ser destruída.

Há mágoas que não podem ser discutidas.

Há tempo que está sendo perdido

e ninguém fala nada.

Estou ocupada me defendendo

e você, ocupada demais tentando continuar viva.

Casa de Tijolos

Casa de Tijolos

Estou ouvindo o volume da sua tv;

está estourando meus tímpanos.

Acho que todos também podem escutar,

ainda que não falem nada

e nem eu vou,

falar.

Não me incomodo com a altura do aparelho,

Muito menos com as vozes que ecoam no corredor.

Me torturo com a pergunta, com a eterna dúvida;

Se você não aumenta o volume de dentro,

para não poder escutar o mundo lá fora.

 

Lembro-me dos tempos em que seus pés ficavam no chão,

quando seu rosto não tinha parado pra fingir expressões confusas

e a sua alma ainda incendiava com qualquer presença.

E quando sua vassoura se erguia no ar, suas sobrancelhas franzidas

com a falsa raiva de nos espantar de sua casa de tijolos.

Me pergunto como aconteceu;

Como você desistiu de você?

 

Eu devia visitá-la,

Mas em vez disso estou perdendo o tempo,

Tendo raiva por outras pessoas

Tomando dores e rancores

do passado;

De alguém que não existe mais.

E quem quer que tenha que te punir,  não sou eu.

Então vou tentando te perdoar,

enquanto olho para a casa de tijolos e vejo uma fração

De quem todos nós já fomos.

 

Eu deveria sentar e te falar

que você não consegue enganar ninguém,

Mas então seria cruel demais te despertar.

Quando nós estamos imersos em nossos mundos

esperando a vida ser um pouco mais fácil.

Enquanto você espera o tempo passar.

Na casa de tijolos.

 

Guerra Fria

Guerra Fria

Se eu fechar os olhos,

As portas ainda estarão abertas.

Se eu fechar os olhos,

Os gritos não me tirarão o sono.

Se eu fechar os olhos,

Não verei ninguém chorar.

Se eu fechar os olhos,

Ainda posso te impedir de me quebrar.

 

A quietude é solitária, eu diria.

E quando não abro a boca para ninguém,

Debatendo comigo mesma sobre botar tudo para fora,

O silêncio ainda me parece valioso,

porque ele esconde a dor que causa mudança

E essa mudança que nos apavora.

 

O ar pesado, metálico.

O sussurro de algo que ninguém tem coragem de dizer.

E a chuva forte, o temporal,

Que respinga em mim e em todos

Menos em você.

Porque não hesitaria em machucar para se proteger.

 

O desconforto é confortável

Para aqueles que já estão acomodados

E não notam que seu conforto incomoda

os incomodados,

que não querem viver desconfortavelmente confortáveis,

Como aqueles acomodados que tem medo de mudar.

 

E, cada vez mais distante,

Você anda por uma trilha de terra ilusória

de quem costumava ser.

E dizem que somos iguais

Os tristes idealistas que terão os mesmos finais.

Mas o ditado está errado,

Já que sou filha de um tubarão e sou um peixe palhaço.

Filho de peixe, peixinho não é

E eu posso ser o que eu quiser.

 

 

Transformando dores em versos

Transformando dores em versos

Na minha mente? Uma obra que ninguém nunca viu, palavras incapazes de serem apagadas, de tão boas.

Na realidade? Só mais um texto igual aos outros, com frases muito diferentes do que eram em minha imaginação.

Minha mão, castigada por uma tendinite insistente, se recusa a mexer-se na superfície branca. Então, ela permanece branca, imóvel. Eu sei que tenho coisas para falar, mas não faço ideia de como dizê-las.

Elas rondam minha cabeça, piscando como um sinal vermelho de aviso; você precisa dizer. E me chamam na madrugada, gritando e implorando para deixarem de ser apenas pensamentos e transformarem-se em um grito de alívio.

Só que nunca saem, nunca se desintegram, pois de algum jeito, parece que por mais palavras e adjetivos que surjam em minha mente, nenhum deles é bom o suficiente para descrever o redemoinho que nela habita. Nenhum deles vai, de alguma forma, acalmar-me deste medo que é estar viva.

Talvez seja um Eufemismo. Talvez seja eu, suavizando a dor e a adaptando para ficar menos insuportável. Ou, talvez, seja só essa mente atormentada que todos artistas tem. A mente que tem sede de criar obras com suas próprias agonias e revertê-las em positividade para alguém no mundo.

 

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