Mês: Abril 2017

Lá na terra de ninguém

Lá na terra de ninguém

Por que todos estão atirando?

Ferindo suas próprias carnes e derramando sangue em busca de paz?

Quantas bombas explodiram lá na terra de ninguém?

E quantas outras terão, até que não reste mais nada a ser destruído?

Não é só os prédios que estão em ruínas,  o mundo também é só destroços

Ele está de baixo da ganância e do individualismo do homem, que soterra todos os dias milhares de nós.

 

 

Lei da Inércia

Lei da Inércia

Com paus e pedras tu me atinges,

Quando, na verdade, a ironia é você possuir o escudo e só proteger a si mesma

Talvez seus olhos tenham esquecido de olhar através de mim e enxergar a minha dor

Afinal, você sempre soube dela melhor do que ninguém

Quem tinha o poder para fazer tudo ficar bem e me cobria com o lençol

Hoje me sufoca com palavras.

 

Dizem que cada vez que mexemos na ferida ela volta a sangrar

Porque um machucado nunca está completamente curado

Deve ser por isso que ainda sinto os meus perfurarem a minha pele.

 

Você não é a única que está chorando a noite

Não é só nos seus sonhos que as coisas continuam dando errado e não dão folga a sua mente

Apesar de parecer invisível, a minha dor também existe

Mas é que eu aprendi a torná-la incolor, para que, assim, só em mim exploda o vermelho da dor.

 

Eu queria ter 6 anos de novo e me envolver em seu abraço

Enquanto você me consolava pelo o pesadelo que eu tive

Mas acho que na vida acontece dessas coisas

Onde aprendemos a sobreviver

Ao mesmo tempo que fazemos os outros sentirem os nossos machucados

E talvez assim, não nos vemos tão sozinhos.

De pouquinho em pouquimho, tiraram minha paz 

De pouquinho em pouquimho, tiraram minha paz 

Começou com uma pedrinha em minha pequena janela de vidro, que rachou instantaneamente

Após isso, um tijolo despedaçou quase todo o meu vidro do carro.

Na última tacada, acertaram-me em cheio na cabeça,

com ódio

E eu jamais aprendi a amar novamente.

Ouvimos mas não escutamos

Ouvimos mas não escutamos

Todas essas canções no rádio dizem as mesmas coisas. Batidas eletrônicas que se dão certo, todo mundo repete e segue o mesmo caminho. Eles querem fazer sucesso, mas não se importam se forem só mais um por aí. De nada diferencia uns dos outros. Parece que estou ouvindo a mesma música de novo e de novo. Então, em um momento de epifania, como quem acha um tesouro, conheço uma banda que ninguém ouve. Eles não podem ser definidos, eles são de tudo um pouco.

Fazem reggae, pop, rock e indie. São estranhos como eu, por isso, me sinto em casa.

Não é engraçado como uma música pode significar pra você e em volta, haver várias pessoas a cantando de forma despreocupada, como se não significasse nada? É só uma música pra eles, mas para você é um conselho, um alívio em notas musicais. Mas aí, quando todo mundo começa ouvir minha banda eu não me sinto mais tão única. É bobo, eu sei, porém, eu fico incomodada quando vejo tanta gente cantando minha música  e  agindo como se não houvesse um significado.

Reparem nas letras, vejam nas entrelinhas! Há uma mensagem por trás e vocês só se preocupam com as batidas, grito em meu pensamento

Eu nunca gostei de eletrônica, tenho que confessar. Não fazia sentido, pelo menos para mim, que houvesse uma música inteira sem nenhuma letra. Não havia nexo nisso. Não para mim. Para alguns por aí, é a melhor coisa que eles já ouviram.

Vamos escutar mais e ouvir menos. As minhas músicas favoritas estão perdendo o significado. Nós deixamos de escutar e só ouvimos.

 

Por que todos estão rindo?

Por que todos estão rindo?

Por que todos estão rindo? Adolescentes estão se matando, pessoas não conseguem sair da cama e milhões de pulsos sangram em peles tão jovens. Tudo feito para aliviar a dor causada por alguém. E esse alguém pode ser eu, você. Talvez seja seja um conjunto de coisas “banais” que burros velhos também já passaram, os que mais julgam e apedrejam quem nada sabe e tudo quer saber. Eles se comportam como se nunca tivessem desejado o infinito e se frustrado quando receberam de volta uma porrada do universo.

Por que todos estão rindo? A dor de alguém está sendo usada como percursor de likes, Retweets, compartilhamentos. As pessoas utilizam-se de suas crueldades mais profundas para serem aclamadas, enaltecidas.  Quando hype da bondade e da falsa conscientização atingem a todos os falsos moralistas e defensores anti-bullyings, os trending topics enchem de mentiras mal contadas por pessoas que são as próprias mentiras, pessoas que são os “porquês” e talvez não saibam disso. Talvez não saibam porquê não possuem a dimensão do efeito das palavras. Talvez sabem, mas querem a todo custo fazer parte de alguma coisa, mesmo que isso signifique fingir que realmente se importam com aqueles que aliviam dores com navalhas.

Por que todos estão rindo? Sete jovens estão internados no hospitais, enquanto sub celebridades desenham com canetas azuis em seus braços na tentativa de serem engraçados. Eles falharam. Estão todos rindo, mas eu não. Eu não clamo por uma divindade, não ergo uma cruz, não piso em um solo sagrado, mas tenho a consciência de discernir o que é ou não falta de empatia, o que é ou não engraçado e ultrapassa o limite da desumanidade. Eu não clamo por uma divindade e não junto as mãos pra depois apedrejar e cuspir naqueles que eu não compreendo ou não conheço. E esses, todos esses hipócritas que fazem doações para construir templos, mas não conseguem nem enxergar seus filhos cobertos pela a dor.

Por que todos estão rindo? A geração de tantas revoluções agora parece ultrapassada, sem graça. O que eu estudei em história perdeu o significado, porque só o que consigo ver é um bando de primitivos ignorantes presos em suas próprias bolhas. Enquanto a minha geração, a dos desconstruídos, a dos questionadores, a dos de almas vazias.

Por que todos estão rindo? Porque não são seus filhos, seus amigos, seus amados. Porque não são vocês.

Um poema ruim

Um poema ruim

Estude, estude, onde pensa que vai?

Está martelando em meu cérebro, a culpa, a culpa, a culpa

Por que eu não me importo?

Estou presa nessa jaula onde eles escolhem o que tenho de saber

Nessa fortaleza de meritocracia e comércio de sonhos

Habitada por alguém que está pagando para ser pago um dia.

 

Livros e 90 reais, é tudo o que eu tenho

Então eu me engano e digo amanhã vai ser melhor

Quando o amanhã chega ele parece hoje, pois todos os dias são os mesmos

no mundo dos sonhos inventados por eles.

Por quem eu faço isso? Por mim, por alguém?

Eu quero andar, mas não sei para onde e tudo o que eu vejo é a terra dos sonhos.

 

Procrastinar

Minha palavra do momento, meu vício de sempre

Tudo parece mais interessante do que esse conhecimento forçado e toda essa didática do passado

O que eles querem que eu saiba eu nem me importo

Porque no papel não parece nada

Já que somos apenas robôs comprando sonhos

 

E se eu não caminhar por esta trilha, o que vou fazer?

Ou você se encaixa no mundo dos sonhos ou ele engole você.

Estamos morrendo todos os dias

Estamos morrendo todos os dias

Estou sentada neste sofá verde musgo, de frente para a minha avó que agora dorme tranquila em uma cama alugada de hospital. Dizem que quando uma pessoa está sofrendo profundamente, você pode sentir isso só de olhá-la. No entanto, tudo o que enxergo é serenidade e resignação. Uma aparência de alguém que sempre pareceu de ferro, mas que agora se assemelha a um vidro prestes a ser despedaçado. Eu pensei que ela era feito de titânio.

Estou sentada de frente para ela e, dessa vez, seus cabelos pretos com mechas brancas parecem mais vivos do que nunca. As mãos enrugadas passam por cima de duas cartas do uno, planejando a próxima jogada. Meu corpo treme, porque sei que minha avó vai acabar com minha estratégia e me vencer pela a 7ª vez em 2 horas. Se não fosse o sorriso bem humorado ao finalizar a partida, eu nunca teria adivinhado que ela havia me deixado ganhar.

E então eu estou chorando pela a noite, me perguntando o que tenho de fazer para fazê-la se mexer e me vencer no uno novamente. O que tenho de fazer para voltar a ter 5 anos de novo e observá-la enquanto cozinhava. O que tenho de fazer para enrolar doces de São Cosmo e São Damião com ela apenas para comer os doces que sobraram no final.

O que tenho de fazer para não te ver ir e ainda poder ouvir você rindo dos palavrões da minha mãe.

Você nem se foi ainda, mas eu já sinto sua falta.

Eu pensei que fossemos imortais, mas estamos todos morrendo.

Aqui jaz aquela menina

Aqui jaz aquela menina

Poeira de uma antiga ruína.
Aqui jaz aquela menina
que com o doce sorriso e sua espada, lutava com monstros e enfrentava tempestades.
Porteira, bom dia pra senhora, ela dizia.
Nem notara o sol queimando seu couro cabeludo
pois dentro dela chovia.
E o que mamãe disse, ela lembra?
“Faça amigos e seja boazinha”
É uma brincadeirinha!
Ela não riu.

Você se lembra das paredes, a doutora perguntou.
Ela disse que as ouviu falar
coisas que jamais haviam dito antes.
Sussurros, risadas.
Crianças também podem ser más.
Elas a ensinaram a odiar.

Papai, por que você não me ajuda, a menina suplicou.
Coloque fogo neles com seu raio, por favor, estou até juntando as mãos!
Você é como todos e também não me vê?
O silêncio permaneceu do outro lado da linha
E dentro dela, a tempestade perpetuou.

Pegue este lenço, querida.
Talvez fosse melhor um band-aid.
Eles tinham pedras
então, que culpa eu tinha de ser de vidro?
Vai ver eu construi minha fortaleza para que não pudessem mais me atingir
e agora eu não sei se um dia vou querer sair daqui.
Aqui jaz aquela menina, que se foi com a dor e deixou de existir.

Elevador

Elevador

Por que eu só não podia ser como todo mundo, eu me pergunto.

O elevador está subindo para o andar em que minha vó está internada e eu tenho uma etiqueta de visitante colada no meu peito.

Eu nunca me senti tão adulta.

Eu nunca me senti com tanto medo antes.

Eu só queria ser normal, eu só queria não estar em pânico, eu só queria não ter vergonha do meu cabelo suado e grudento na minha nunca e poder olhar para o vidro preto que reflete minha imagem no outro lado.

Eu só queria que essas estrofes ficassem certas, mas eu nem sei se isso realmente é um poema.

Eu só sei que elas são pequenas demais para um oceano de temor que cresce em mim.

Eu peço desculpas se nada rima, mas é justamente porque não precisa ser bonito, só precisa ser real.

E essa sou eu, a que está refletindo no espelho do elevador, a que está com medo de deixar de ser invisível como sempre foi.

A que só quer sair desse elevador.

 

 

 

De baixo do seu nariz

De baixo do seu nariz

Você ainda está usando seus óculos que deixam seus olhos maiores.

Eu estou torcendo que olhe para mim, mas a luz do seu celular se apaga e dá as boas-vindas ao breu do quarto.

Ouço sua respiração ficando lenta e criando um ritmo uniforme, um padrão cansado de quem trabalhou o dia inteiro.

Você tem sorte em poder se embriagar em seu próprio sono, porque até em meus sonhos eu vago como um zumbi.

Eu queria chorar, derramar-me em minha própria dor e me afogar em meu desespero,

Mas tudo o que eu sinto é nada mais que vazio.

Eu estou me afogando na minha própria correnteza e eu me recuso a pedir ajuda.

Eu sempre tive de dessas achar que sou melhor sozinha.

Vai ver é porque nunca pararam para enxergar através de mim.

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