Mês: Julho 2017

Criando amores

Criando amores

 Um texto de amor é uma linha não preenchida.

É desse modo que me sinto quando ouço, vejo ou leio algo sobre o amor.

Sinto-me como uma folha em branco.

É estranho, sabe? Eu sempre fui do tipo que me entrego em tudo. Surgia uma amizade e eu pensava que deveria dar o melhor de mim. Achava que gostava de um cara e o meu peito explodia em emoção por finalmente me sentir viva, mas era só a ânsia de amar, como todo mundo já amou um dia.

Todo mundo, menos eu.

Foi a partir dessa vontade e desejo de ter a experiência de amar profundamente alguém, que passei a me apegar a quase todo cara que criasse um pouco de vínculo comigo. Com isso, fantasiava histórias – sofridas e dramáticas, como sempre fui – de pessoas que eu queria que me amassem. Pessoas que eu queria amar.

Nunca deu certo, é claro. Não só por conta da frustração de perceber que eles não eram o que eu idealizei, mas também por ter dado tudo de mim e receber nada em troca. Penso eu que no fundo, o meu único objetivo era ser amada.

Queria muito sentir toda essa coisa que os livros, os filmes e as postagens de corações partidos que as pessoas compartilham dizem.

Me disseram que o amor é para quem está pronto para se permitir e se deixar ser amado.

E se talvez eu é que não queira que me amem? 

 

Copos cheios e vazios

Copos cheios e vazios

Tem gente que é cheio. Cheio de alegria, cheio de motivação, cheio de vontade e cheios de sonhos. Essas pessoas estão sentindo algo, ainda que coisas negativas, pelo menos sentem e isso é importante. Sentir te faz vivo.

Tem gente que é vazia. Vazia de conteúdo, vazia de objetivos, vazia de motivação, vazia de vida. Essas pessoas estão sentindo nada.

Pessoas são como copos.

Quando jovens, começamos cheios. Somos cheios de sonhos, cheios de energia, cheios de inocência. À medida que envelhecemos, nossos copos vão se esvaziando e não nos resta motivação, disposição e não estamos mais tão cheios como antes. Deixamos a maré nos mover e achamos que estamos velhos demais para sonhar.

A diferença entre copos cheios e vazios é justamente o que há e o que não há dentro deles. A maioria das pessoas pensam que quando vazios, os copos só precisam ser completados novamente, porém, é muito mais que isso.

O que estava lá dentro nunca mais pode ser recuperado, nunca mais será a mesma coisa.

Essa é a diferença entre pessoas vazias e pessoas cheias.

Alguns de nós não entendem a condição dessas pessoas vazias, pois ainda estamos cheios ou acostumados demais com o vazio, a ponto de confundir ele com estar cheio.

No entanto, muitos não suportam estarem vazios, pois permaneceram assim por tanto tempo, que não se lembram mais como é estar cheio.

Não julgue, estenda uma mão. Você nunca sabe quando seu copo pode derramar.

Certo e errado, muito e nada e todos esses opostos.

Certo e errado, muito e nada e todos esses opostos.

Eu deixei para lá gente que criticava minha sensibilidade e não entendia que ela é uma das melhores partes de mim. Gente que não compreendia a compaixão em sua essência e não praticava a empatia, pois eram si mesmos demais para serem outros, nem que por 1 minuto.

Não vou pedir desculpas por quem eu sou ou por quem eu era. Eu te aceitei, lhe acolhi, deixei você entrar.

Eu nunca deixo ninguém entrar.

Minha mãe me disse que eu sou rancorosa e é verdade. Nasci assim, sem o botão do meio, só com o muito ou nada.  Eu senti muito por você… até que restou nada. Quer dizer, não nada, pois há o rancor, a mágoa, o arrependimento.

Acho que depois de tantos textos, poemas e versos sem sentido, entendi que nada é bom se te faz sentir errada. Não tem nada de ruim em ser você e se alguém disser ao contrário, provavelmente é porque você está certo.

Tristeza

Tristeza

Alguém me rasgou hoje de manhã,

Não sei como me colar de volta.

Falar metaforicamente seria mais bonito,

Mas a tristeza não é linda,

Ela é feia,

E é só a tristeza,

Hedionda na própria palavra,

Horrorosa em sua essência.

Acredite, não há nada belo em se sentir vazio.

 

Somos nada além de ossos e histórias

Somos nada além de ossos e histórias

Quando os anjos cantaram

E você repousou serena na superfície de madeira,

Sendo nada mais que um corpo, uma máquina, uma matéria,

Eu entrei em pânico, terror!

Queria chorar, mas não conseguia sentir,

Se eu sentisse significaria que seria real

E se fosse real, eu teria que aceitar

Que você estava desligada, que se foi e simples assim!

Eu queria saber

Para onde foi seu cheiro, sua risada escandalosa, suas histórias sobre Getúlio vargas?

Estranho como é morrer,

De uma hora para outra nos tornamos nada

Além de ossos,

Sem voz, sem pele, sem consciência

Resta só histórias contadas por outro alguém.
Eu me perguntava o motivo de Gus ter medo de ser ninguém

Agora sei que se você morre sozinha

E se morrer significar se tornar ossos,

Quem contará sua história?

A carta para as estrelas

A carta para as estrelas

A última vez que falei de verdade com a minha avó foi em uma cama de hospital. Eu estava suando, com muito medo e confusa. As paredes brancas em volta me davam a sensação de estar à deriva, pessoas saíam e entravam. Eu não conseguia me sentir confortável o suficiente para dizer, “ei vó, eu te amo e sinto muito que você esteja sofrendo, mas fico feliz que tenha sido minha única amiga por anos”.

Eu não disse. Eu nunca digo. Não me despedi.
Se eu faria diferente? Sim.

Pediria desculpas por ser covarde e sair correndo após meia dúzia de palavras.

 A verdade, é que a visitante do leito ao lado berrava e arruinou todo o momento que eu poderia ter tido com ela. Fiquei com raiva dela por dias, depois me repreendi por ser tão rancorosa – mas o que posso fazer? É minha essência.

Naquele milésimo de segundo que corri com toda a força que tinha, a ficha tinha finalmente caído para mim . No fundo, eu sabia – seria a última vez que eu ouviria a voz dela.

 Os dias que se seguiram foram piores. Sempre são. As primeiras vezes vão ser as mais dolorosas. E foi o primeiro dia das mães que passamos sem ela, com minha mãe despedaçada e eu tentando não ser sentimental. Essa foi a pior parte.

Na primeira segunda sem ela foi difícil.

A Terça pareceu insuportável.

O “aniversário” de 7 dias foi quase como um chute no peito.

 E assim foi se seguindo, complicado e impossível de se medir em palavras – embora, sabe… eu ainda esteja tentando.

 Nunca vai ser fácil. Ninguém supera a morte, só convive com ela. Você tenta se adaptar aos pequenos detalhes que deixam de existir sem essa pessoa, coisas importantes, pois os menores fragmentos de memórias costumam ser os mais complexos de se passar por cima e ignorar.

A forma como o perfume da pessoa ficava em sua roupa, cheiro da comida que ela fazia ou o modo como havia cada tipo de risada para uma situação diferente. As coisinhas serão as mais dolorosas e você não vai esquecê-las, só naturalmente transformá-las em nostalgia.

Chega uma hora que congelará. A dorzinha no peito se fará presente de vez em quando, mas o que sobra são só memórias e, principalmente, o alívio de ver que quem você ama se libertou e não está sofrendo.

Eu sempre sentirei falta dela. Ainda sinto, todos os dias e a cada vez que vejo a palavra “avó” em algum lugar.

Dói, lateja, incomoda, mas me consola saber que ela não sente mais dor.

Ela é alguma coisa por aí, como o sol e as árvores e as risadas que consigo arrancar da minha mãe, mesmo sabendo que ela sente falta dela e sofre constantemente.

Ela está em todo o lugar, inclusive, aqui comigo.

Espero que não fique brava se eu fizer uma grande besteira e me ajude!

Eterna saudades.

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