A carta para as estrelas

A carta para as estrelas

A última vez que falei de verdade com a minha avó foi em uma cama de hospital. Eu estava suando, com muito medo e confusa. As paredes brancas em volta me davam a sensação de estar à deriva, pessoas saíam e entravam. Eu não conseguia me sentir confortável o suficiente para dizer, “ei vó, eu te amo e sinto muito que você esteja sofrendo, mas fico feliz que tenha sido minha única amiga por anos”.

Eu não disse. Eu nunca digo. Não me despedi.
Se eu faria diferente? Sim.

Pediria desculpas por ser covarde e sair correndo após meia dúzia de palavras.

 A verdade, é que a visitante do leito ao lado berrava e arruinou todo o momento que eu poderia ter tido com ela. Fiquei com raiva dela por dias, depois me repreendi por ser tão rancorosa – mas o que posso fazer? É minha essência.

Naquele milésimo de segundo que corri com toda a força que tinha, a ficha tinha finalmente caído para mim . No fundo, eu sabia – seria a última vez que eu ouviria a voz dela.

 Os dias que se seguiram foram piores. Sempre são. As primeiras vezes vão ser as mais dolorosas. E foi o primeiro dia das mães que passamos sem ela, com minha mãe despedaçada e eu tentando não ser sentimental. Essa foi a pior parte.

Na primeira segunda sem ela foi difícil.

A Terça pareceu insuportável.

O “aniversário” de 7 dias foi quase como um chute no peito.

 E assim foi se seguindo, complicado e impossível de se medir em palavras – embora, sabe… eu ainda esteja tentando.

 Nunca vai ser fácil. Ninguém supera a morte, só convive com ela. Você tenta se adaptar aos pequenos detalhes que deixam de existir sem essa pessoa, coisas importantes, pois os menores fragmentos de memórias costumam ser os mais complexos de se passar por cima e ignorar.

A forma como o perfume da pessoa ficava em sua roupa, cheiro da comida que ela fazia ou o modo como havia cada tipo de risada para uma situação diferente. As coisinhas serão as mais dolorosas e você não vai esquecê-las, só naturalmente transformá-las em nostalgia.

Chega uma hora que congelará. A dorzinha no peito se fará presente de vez em quando, mas o que sobra são só memórias e, principalmente, o alívio de ver que quem você ama se libertou e não está sofrendo.

Eu sempre sentirei falta dela. Ainda sinto, todos os dias e a cada vez que vejo a palavra “avó” em algum lugar.

Dói, lateja, incomoda, mas me consola saber que ela não sente mais dor.

Ela é alguma coisa por aí, como o sol e as árvores e as risadas que consigo arrancar da minha mãe, mesmo sabendo que ela sente falta dela e sofre constantemente.

Ela está em todo o lugar, inclusive, aqui comigo.

Espero que não fique brava se eu fizer uma grande besteira e me ajude!

Eterna saudades.

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