A dor muda as pessoas

A dor muda as pessoas

Quando crianças nós caíamos, nos machucávamos e nos ralávamos. Porém nossos pais possuíam um segredo mágico: o remédio que fazia tudo sarar. Ele ardia, mas curava. E depois de algum tempo, tudo o que restava de um machucado era uma casca feia. No entanto, mexer nela de novo só fazia com que saísse sangue novamente, então era sempre importante deixar o machucado voltar ao normal sozinho. Por consequência disso, ás vezes eu tinha medo de andar de bicicleta e me machucar, pois sabia que mesmo que a dor momentânea passasse, ainda sim não queria mais senti-la.

A partir do momento em que nós crescemos, as coisas mudam. Quer dizer, os machucados ainda existem e os nossos pais/responsáveis continuam se preocupando, mas surge um tipo de dor da qual eles não podem usar um remédio pra curar; A do coração.  Quando dizemos “dor no coração” não é a dor no órgão, mas que de alguma maneira ela é interna.Isso acontece porque apesar dos sentimentos serem coisas biológicas, achamos que eles estão no nosso coração. É estranho sentir a angústia interna, porque ao contrário da dor de cabeça, de dente ou muscular, que você sabe de onde vem, a dor emocional é algo que faz alguma coisa aí dentro se partir. É por isso que a dor nos muda, porque passar por tal experiência é tão ruim que começamos a nos auto proteger sem ao menos nos dar conta.

A dor também é banalizada. Os seres humanos, muitas vezes, não conseguem se colocar no lugar de outra pessoa e entender que cada um tem uma forma diferente de lidar com a dor. Tentar fazer alguém compreender a sua dor é quase impossível, porque quando se sente alguma coisa, dificilmente você pode e consegue transcrever exatamente o que se passa em palavras. É como tentar falar com alguém em uma língua da qual a pessoa não tem conhecimento, pois ela pode até te ouvir mas não será atingida pelo o que você fala. Ela simplesmente não entende e isso é normal. Com essa coisa das pessoas não terem muito a capacidade de se sensibilizar ou tentar entender a dor alheia, muitos preferem só guardar ela e desabafar internamente. A pior parte é se sentir julgado demais e pensar que nenhuma pessoa do mundo conseguirá te olhar e dizer “tudo bem, eu entendo o que você sente”. Parece que quanto mais falamos, menos as pessoas tornam-se abertas a tentar não nos colocar como necessitadas de atenção quando só precisamos de palavras de apoio.

Pessoas mudam pela a dor porque elas se cansam de decepcionar-se. Contudo, a decepção só está aí porque criamos expectativas. Eu seria muito hipócrita se falasse para que não criem expectativas, porque todos nós criamos. Esperamos que os outros sejam do nosso jeito e se comportem da maneira que achamos melhores. Na maioria das vezes, idealizamos pessoas dentro de nosso ideal de perfeição e as culpamos se elas não respondem a isso. É claro, a culpa ainda continua sendo desse indivíduos que usam, mentem com má intenção, se afastam, enganam e iludem. Não é fácil ter de ser forte quando internamente você está destruído.

Estar decepcionado, ferido ou machucado é como visualizar uma daquelas bonecas sem cabeça. A parte do corpo está ali, tudo continua inteiro mas alguma parte muito importante foi tirada. Pode até ser que ela seja consertada, mas nunca vai ser a mesma coisa porque talvez o impacto de uma queda ou um puxão a fará sair novamente. Afinal, ninguém é imune a dor.

Em algumas situações estamos tão ruins psicologicamente que aprendemos a ignorar nossa própria dor. Talvez, momentaneamente seja melhor. Fingir que não está machucado é uma grande responsabilidade a si jogar pra sua pessoa, porque você cobra de si mesmo que continue forte mesmo tendo todos os motivos pra desabar. Por isso, ás vezes é bom ficar triste e se permitir ser triste em alguns momentos, porque da mesma maneira em que eu escrevo, alguns pintam, outros dançam ou cantam, você tem que colocar esse sentimento ruim pra fora. Portanto, não internalize sua dor por muito tempo, porque ela vai te destruir em algum momento.

E adivinhe só?

O remédio pra sua dor interna é só você que pode fazer.

 

 

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