Dentro de toda concha, há uma pérola

Dentro de toda concha, há uma pérola

Quando minha avó morreu, eu não chorei. Enquanto as pessoas ao meu redor se emocionavam em volta do corpo desfalecido dela, eu só conseguia ficar impassível. Havia uma tempestade dentro de mim, mas o meu rosto mostrava apenas um dia nublado, como qualquer outro. Em nada a minha face fazia jus ao dilúvio que era meu coração naquele momento. Então eu me senti culpada e me amaldiçoei. Eu não conseguia ser que nem todo mundo era, não possuía a capacidade de me sentir livre e à vontade para chorar, espernear, ficar despedaçada. Eu simplesmente não conseguia ser vulnerável.

A minha vida inteira foi assim, eu tinha uma habilidade incrível para deixar todos saberem o que eu pensava, no entanto, se pudesse classificar o meu talento para expressar o que eu sentia, diria que é um -3. Ninguém realmente chega 100% em mim – do meu coração, quero dizer. O máximo que conseguiram alcançar foi 98% e o resto dos 2% eu guardo para mim mesma. Tem que haver isso, se não, não sobra nada que eu não tenha compartilhado. Outra coisa importante é que eu não reajo como “todo mundo”. Não que eu realmente pense que todas as pessoas do universo sentem da mesma forma, mas o modo padrão de emoções é que quando ocorra uma tragédia, você se desespere e no momento que alguém vai embora da sua vida, as lágrimas escorram por sua bochecha.

Mas comigo é diferente, eu não reajo, eu não choro e nem grito. Não que eu esteja me segurando, pois não faço isso – ou talvez eu não queira assumir que faço. O fato, é que eu não levo as coisas a sério quando elas acontecem. Eu demorei 4 meses para “descobrir”, ou melhor, ver a minha ficha cair sobre a minha avó. Só depois de muito tempo percebi que ela não ia voltar. Mais de 60 dias depois do luto dos meus familiares estar acontecendo, o meu havia começado. Então eu sofri em silêncio, como sempre.
Talvez você esteja se perguntando se eu já contei para as pessoas o que eu sinto.

A resposta é sim, na maioria das vezes eu sou sincera em relação aos meus sentimentos, especialmente quando escrevo. Lembro-me de desde pequena escrever cartas para os meus pais, na tentativa de pedir desculpas por algum mal comportamento ou burrada que havia feito. Eu não sabia como explicar que eu sentia muito, então, o meu modo de me expressar era com palavras. As palavras sempre foram minhas amigas.
Eu não tenho uma conclusão para isso, talvez você possa me ajudar a chegar em uma. A única coisa que sei é que sentimentos não são o meu forte, pois embora saiba que eles existam, não faço ideia de como lidar com eles. Eu ainda estou aprendendo a não afastar todo mundo de mim ou a não ficar em silêncio quando eu deveria dizer o que está acontecendo.

Viver em uma concha é muito mais difícil do que todo mundo acha, mas é muito sortudo aquele que tem paciência e acaba descobrindo que dentro de toda aquela proteção, existe uma pérola.

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