Categoria: limitações

A dor de um vazio

A dor de um vazio

Como não pôde ver em seus olhos?
Havia sangue.
Havia dor.
Havia desespero.
Em sua pele, nas arestas mais profundas, o vazio se misturava
com o medo de não poder sentir bem de novo
nunca mais.
Com o pavor de talvez, não ser capaz de respirar sem sentir o ar escapar.
Foi aí que desapareceu.
Para sempre.

Não houve condolências
mas dedos apontados.
Não houve abraços reconfortantes
e sim olhares cruéis de pessoas que queriam achar culpados
para se livrar do simples fato
de que todas eram um pouco culpadas também.
Em vez do “por que?”
ouvia-se “já era de se esperar…”
“claro que sim, eu sabia….”
Ninguém nunca olhou além e questionou se estava tudo bem.

Alguém perguntou para você se está tudo bem?
Não.
Isso porque
todo mundo está bem mais preocupado com o horror de uma escolha
do que com o motivo dela.
Todo mundo se importa bem mais em rir daquele mais tímido
do que chamar e incluí-lo.
Todo mundo se interessa mais em fingir que ama a todos e não discrimina
só para não queimar no inferno
mas realmente não pratica o amor.
E a falta de amor
leva ao vazio
e o vazio
que lhe deixou a alma oca
matou por dentro
aos poucos.

Todos eles lhe mataram
com cada palavra ou a falta delas
e cada olhar ou a ausência deles
e cada vez que disseram
que não era bom o suficiente.

Ele não queria sumir porque queria morrer
ele queria sumir para que parasse de doer.

Amigos que querem amigos

Amigos que querem amigos

Oi, tudo bem?
Estou aqui, tentando achar sua consideração por mim,
a que você diz que tem…
mas tem algo bloqueando,
acho que é seu ego.

Você é o tipo de pessoa
que quer te ouçam, mas não ouve.
Você é o tipo de pessoa
que não responde alguém porque acha que precisam da sua existência
mas você não precisa de ninguém, né?
Então não se importa,
porque é muito conveniente.

Eu adoro a conveniência e a praticidade que a sua vida parece ter
encanta, enjoa, descarta.
Mas cuidado
um dia alguém vai perceber
o quanto não encantadora sua personalidade é,
e enjoará da presença “aleatoriamente não proposital” e possivelmente oportunista que possui
e depois te descartará,
assim como você fez com todas as pessoas que não precisava mais.

Você tem saudade
mas só quando quer alguma coisa.
Você se importa
mas só quando te convém.
Você ajuda quando alguém necessita
mas não sem falar de si.
Você realmente me ama
mas não abre mão de nada por ninguém.
Você com certeza quer saber o que houve
mas não dá a mínima para o que os outros são.
Você quer amigos
mas não quer ser amigo.

 

Longas linhas de indignação

Longas linhas de indignação

Tem uma dor
rasgando meu peito.
Uma dor em forma de lembranças
E perdas
que eu nunca vou conseguir reparar.

Tem um rosto em minha mente
que é o motivo do caos
e de toda a insegurança
que eu não sei se posso evitar.
Porque eu acho que esses traços em sua face
levaram toda a minha energia.

Não foi só o que você disse
mas também o que deixou de fazer
e o jeito que me fez sentir
como se eu fosse errada
por ainda tentar.

Não foi só o que você não disse
mas também o que você fez
e a maneira como não se importava
em não se importar,
como se eu fosse descartável
e fácil demais de deixar de lado.

Você não se preocupou
pois sabe da minha frequência em me doar
para quem não se incomoda
em não retribuir.
Porque é verdade
ninguém tem dúvidas
de que eu sempre volto.

Como você pode
me deixar ir
com a facilidade que você respira?
Ainda não entendo.
Ainda não compreendo.
A única coisa que eu sei e tenho certeza
é que você me machucou
e nunca se deu ao trabalho
de oferecer um curativo.

Eu estou cansada de me sentir com raiva
especialmente se você
não sente nada.
E a ironia é que
no final,
as pessoas que nos ferem
são as que menos peso carregam.
E eu já sinto as minhas costas curvadas
pelo o volume de mágoa
que eu tenho em minha bagagem.

A força das águas

A força das águas

Um copo vazio é apenas uma superfície sem nenhum conteúdo.

Uma pessoa vazia é alguém se afogando em si mesma.

Nadar contra a corrente parece quase impossível diante da força das ondas, elas insistem em nos jogar para longe, onde não há borda.
Então nadamos, batemos as pernas, pegamos fôlego e tentamos resistir, mas nem sempre há um final feliz imediato.
Às vezes, a onda é tão devastadora que quase leva todo o nosso oxigênio. É pouca a chance de respirar, para tanta água de uma vez.

E é verdade…
em alguns momentos, não dá para dar conta.

Não é só uma questão de escolha, mas de saúde mental. O ser humano tem algo em comum com máquinas;

ele também entra em colapso.

Nesse quase desfalecimento, nada parece funcionar. Os movimentos ficam mais cansativos de se fazer, todas as coisas estão tão longe de ser alcançadas e a vida não dá sinais que vai lhe deixar caminhar, pelo o contrário, só aparenta que vai te jogar mais para tras.

O problema é que para ser forte, é preciso ter essa força.

Não é sobre capacidade, mas sim limite.

O quanto você pode aguentar?

Ninguém tem que ser inabalável.

Tudo bem chorar,

lava a alma de dentro para fora.

E acho que nossas almas estão tão pesadas, que necessitam de uma limpeza.

Porque é verdade quando dizem que

não tem nada de errado em não estar bem,
tem algo errôneo em fingir que está bem de forma tão convencente,
que até você mesmo passa a acreditar nisso.

Reféns

Reféns

Eu me sinto como uma criminosa.
Colocando uma arma na cabeça das pessoas e as fazendo de reféns, para que elas mantenham uma conversa comigo.
*Câmbio* – alguém aí?
Nada. Só silêncio. A quietude ensurcedora.
Talvez se eu gritar, eles vão me ouvir?
É…
Eu tenho a impressão de que só assim me notarão.
A verdade é que por mais que eu me esforce,
não consigo fazer ninguém perceber
o quanto eu preciso realmente de alguém.

Os meus amigos estão longe, lá do outro lado.
Eu os amo, sei que me amam…
mas e se eu não chamar, será que o meu telefone vai vibrar sem que eu implore?
Às vezes eu tenho medo de nunca mais ouvir nada do outro lado.
Eu tenho medo de ficar sozinha de verdade
e perceber que ninguém faz questão que eu permaneça.

Não quero mais fazer reféns,
eu gostaria mesmo é de parceiros de crime.
Estou cansada de ter que suplicar por amor,
eu não gosto de ser do tipo que recolhe migalhas.

Perguntas sem respostas

Perguntas sem respostas

O quanto vale uma desculpa não sincera para não criar coflitos?
O quanto dói um “estou quebrado” disfarçado de “ta tudo bem“?
O quanto me arrependo de quando eu queimei minha mão, pois disse que a colocava no fogo,
por quem me deixou ser queimada viva?
Quantas vezes eu me sacrifiquei, para ser sacrificada logo em seguida?
Quantas vezes mais vou ter que me fazer passar por isso, até perceber que para a maioria das pessoas, eu sou o momento do “por enquanto” antes do “para sempre”?

Quanto rancor eu vou guardar, até constatar que a única que ainda se importa sou eu?
Qual o número de poemas que escreverei, até chegar a conclusão que alguns versos nunca substituirão um grito de alívio?
Quando eu vou parar de mentir para mim mesma e assumir que não, eu não posso passar por tudo isso sozinha?
Quando eu vou parar de sugar as coisas das pessoas e buscar o amor dentro de mim?
Quando eu vou descobrir que eu cresci e que não posso me esconder por muito tempo?

Quantas situações eu desperdicei por medo de me machucar?
E quantos dias vão ter que passar, para eu notar que a única que pode mudar a minha própria vida sou eu?
Quantas perguntas desse poema eu não respondi?
Quantas delas eu tenho respostas das quais não quero ouvir?

A História de Insípida e denguinho

A História de Insípida e denguinho

O seu shorts
As tinturas
A sua mãe e o purê de batata dela
que eu comi a contra gosto,
pois tinha que fazer trabalho da escola com você.
Eu te odiava porque você me odiava,
não te olhava de cara feia pelo o fato de você ter feito eu me sentir menor
por não saber que a mão fica na nuca e a língua mexe de uma determinada forma.
Eu nunca soube disso, eu não me importava,
mas talvez você e todos eles fizeram parecer importante.
Então eu procurava preencher todo o vazio dessas coisas
para tentar me igualar a quem eu sabia que não podia alcançar…
ou, pelo menos,
eles fizeram com que parecesse que era alto demais para mim.

No entanto,
eu descobri em você, um pouco de mim.
O seu vazio se refletia nos seus olhos, quando sorria para um garoto da série mais velha,
tentando mostrar suas pernas nuas, cobertas apenas por um fino pano de tecido do uniforme da escola.
Eu me perguntava o porquê de você fazer aquilo para eles e não para si mesma, pelo o simples motivo de gostar daquela roupa.
Por que era tão importante que eles te desejassem?
Talvez fosse isso o que esperavam de você,
então foi isso o que fez.
Todo mundo esperava que eu me escondesse,
foi isso o que eu fiz.
No final, estávamos tentando sobreviver.
Mas você ainda era insípida por si só, da sua maneira
e eu também.
Você me odiava e eu nunca soube o motivo.

Eu lembro de sentir inveja do quarto dela,
das coisas que tinha, dos seus brinquedos
e da sua pele de porcelana.
Ela era minha amiga, mas não gostava de mim.
Não que eu tenha gostado, igualmente,
eu sabia que era uma troca.
Ambas tínhamos medo de estarmos sozinhas,
então nos submetíamos a qualquer coisa que impedisse a nossa sombra de se projetar sem uma do lado.
Meu telefone tocava e eu tinha certeza que era ela para falar mal da menina insípida,
as duas eram igualmente falsas e possuíam uma amizade tóxica,
mas, no final, sobrou para mim.
Eu fui a esfaqueada por duas pessoas com a faca nas costas.

Não sei por onde elas andam.
Eu não me importo.
Confesso que guardo muita mágoa de bastante gente, mas esse não é o caso.
Eu sei disso porque
eu não guardo nada de bom do que restou
e só deu 1 poema,
significa que eu realmente não tinha nada a dizer.
Afinal, não dá para fingir relevância para quem faz questão de ser irrelevante
enquanto passa na vida de outras pessoas.

 

Eu não só cresci, eu também me machuquei

Eu não só cresci, eu também me machuquei

Fui uma criança simpática. Amava festas, falava com todo mundo – claro que, ocasionalmente, eu era malcriada e respondia quem me irritava, o que acabou me dando uma fama de personalidade forte. No entanto, isso é um assunto para outros capítulos.

O que realmente mais me marcou foi a minha mudança brusca de miss sunshine para garota adolescente mal humorada e revoltada. Eu não sei em que momento isso mudou, mas aconteceu. Por muito tempo, as pessoas me perguntavam o porquê dessa bizarra alteração de comportamento, mas eu não sabia responder, então só sorria e agradecia, me segurando para não usar palavras de baixo calão e fingindo que eles não tinham me insultado, querendo dizer, na verdade, de forma gentil, que eu me tornei antipática.

De fato, eu nunca tive uma resposta para isso.

Mas acho que agora eu entendi.

Eu cresci.

As pessoas mudam, comigo não foi diferente.

Ainda que eu tenha muitas coisas de quando eu era uma criança, como o fato de tomar nescau no café, o desejo de questionar tudo ou o jeito de ser obcecada por livros.

Mas claro, outras se modificaram, como a maneira que eu olho para quem está a minha volta, a minha concepção de mundo e de quem eu sou.

Eu cresci, acontece.

Hoje em dia eu não perambulo pelas as mesas das festas e não falo com todo mundo como antes, mas de alguma forma, eu ainda questiono  e continuo sendo a garotinha irritante que fala o que pensa, isso não mudou.

Só que eu nunca tinha parado para pensar que me machuca o que os outros pensam de uma versão de mim. Porque sim, machuca. Honestamente, eu sinto saudade de ser alguém que só distribuía sorrisos, mas o modo como eu vejo as coisas se modificou, não é mais colorido e brilhante e sim sombrio e cinza.

Eu sou uma pessimista de marca maior, isso é certo. Talvez eu conseguisse sorrir para todos porque eu não tinha realmente o que me preocupar, não ocupava minha cabeça com decisões sobre vestibular, mortes de parentes ou pressões da sociedade, eu só estava começando a saber o que era viver e não tinha ideia de que tudo é muito maior do que eu jamais percebi.

Confesso que me guardei na minha concha, essa foi minha forma de me defender das pessoas e eu comecei a ficar sempre na defensiva, aterrorizada com o que viesse até a mim. Eu tenho medo de pessoas, eu constato. Tenho pavor de machucar e acho que é exatamente por isso que eu mudei.

Eu não só cresci, mas eu também me machuquei.

E cada um acha, em sua maneira, um mecanismo para se proteger das maldades do mundo.

Essa foi a que eu encontrei.

Criar uma bolha onde ninguém pudesse entrar e me ferir novamente.

Calendário

Calendário

Estou escrevendo, escrevendo, escrevendo…
Liberando minha alma do que a aprisona,
mas você continua entre minhas artérias,
como uma bactéria que se aloja
e suga o que tem dentro,
me consumindo aos poucos…
Até que não reste mais nenhuma parte
do que um dia eu fui.

Eu me cobro algum verso poético
que possa derramar meu rancor nestas páginas,
de forma que as sílabas digam o que eu não consigo falar,
de maneira que todas as palavras possam mostrar
a tamanha dor de viver,
uma mágoa,
dia após dia,
enquanto os meses e anos se passam para ele,
e eu continuo naquela mesma data,
sofrendo pelo o mesmo motivo
como se fosse a 1ª vez.

Ele disse “me desculpa”,
mas todo o meu bom senso que ainda resta disse “não!”.
Então,
eu falei que o tempo pode curar.
mas como, se para mim ele nem passou?
Pois sim,
eu revivo, revivo, revivo e revivo aqueles dias,
e após isso, a mágoa surge de novo, ainda mais forte,
e eu o odeio cada vez mais.
Sim,
eu marquei no calendário
o aniversário
do meu rancor.

Volte dez casas

Volte dez casas

Não sei o que é mais assustador, se é uma parte da nova geração apoiando a velha geração em seus erros ou a velha geração querendo a repetição dessas mesmas falhas, ainda que já tenham noção de suas consequências.

Alguns já sabem o final, mas querem que ele se repita. Outros, lutam para que um novo começo possa ser feito. Você não pode mudar o que já passou, mas tem a opção de reescrever um início diferente.

Essa é a questão…

tem gente que quer um vale a pena ver de novo.

Bom, dizem que errar é humano, mas eu acho que permanecer no erro é cada vez mais humano ainda.

Às vezes, tenho a impressão que não verei mais o horizonte, de tantos passos para trás que estão sendo dados.

Sinceramente?

Eu também estou no jogo e eu não pretendo voltar mais casas.

 

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