Categoria: sociedade

“No meu tempo…”

“No meu tempo…”

 Todos querem se sentir confortáveis com a maneira que vivem, mas a maioria não consegue. A forma que algumas pessoas acham de se sentirem à vontade, é apontando o que mudou e fazer de tudo para que pelo menos em seu pequeno mundo, nada seja alterado. É uma questão interessante, porque elas ficam assustadas com as mudanças, irritadas com o fato de que a sociedade em que fora criada agora se modificou e não há como se encaixar nela, a não ser que se insira nas novas ideias. No entanto, aceitar não é isso o que esse pessoal do “no meu tempo…” quer, eles, na verdade, desejam que tudo volte para o seu “lugar” original, aquele antes de tudo mudar e os deixar deslocados e desconfortáveis.

O poder é algo que o ser humano ama ter, mas odeia perder. Quando as pessoas percebem que estão enfraquecendo em seus tronos, elas diretamente atacam a fonte dessa causa de fraqueza e, geralmente, os motivos são indivíduos insatisfeitos. Por isso, quando a fonte inesgotável de autoridade começa a ruir, quem sofre são os que não estão no topo – apesar disso, pode ter certeza que eles incomodam de serem questionados.

Porém, em contrapartida, os lá de cima fazem tudo o que está ao alcance para que nada mude para eles, afinal, ninguém abre mão do privilégio – nem mesmo se estiver prejudicando vidas alheias – o mais importante é que tudo esteja bom para si, não têm relevância a quem está se ferindo.

Existem mudanças boas e ruins. Em muitas delas, alguém sai perdendo – e  tenho certeza que esse indivíduo que perdeu não gostou de perder. Por esse motivo, muitos não aceitam as transformações ao longo do tempo, pois muita gente é beneficiada com a desigualdade dos outros. Aliás, o “não possuir mais” é não ter mais como usufruir de algo que lhe privilegiava.

“No meu tempo…”, disse, com a fúria em seus olhos, irritado porque não está mais usufruindo dos benefícios às custas do desfavorecimento de alguém

ou porque quer que o mundo seja confortável da maneira que pensa ser certa para que viva ou, por fim, porque não têm coragem de ser feliz da maneira que outros estão sendo.

E, acredite em mim, o ser humano fica muito incomodando se alguém possui a bravura de desafiar a ser feliz.

No seu tempo era bom, mas era bom porque beneficiava você e é por esse motivo que não se incomodava, já que nunca te afetou. Ademais, quando o calo apertou, emfim se deu conta que perdeu seu privilégio e alguém finalmente ganhou um direito.

Por que queremos consertar todo mundo?

Por que queremos consertar todo mundo?

Nos romances adolescentes – ou young adults, para quem está familiarizado com o mundo da leitura atual – eles estão em todos os lugares… os vulneráveis, porém casca grossas, os sensíveis, mas só com as garotas que gostam, os que geralmente usam jaqueta de couro e pilotam uma moto. Se você ainda não adivinhou, lhe apresento os bad boys, a estereotipização do ser humano que precisa ser salvo.

O amor muda as pessoas, nós ouvimos desde sempre.

Esse pensamento deu munição para a construção de moldes perfeitos para cada um, já que ao escutarmos que as pessoas mudam por estarem amando, acabamos por querer moldar os outros usando o amor como desculpa.

De fato, as pessoas realmente se modificam, mas não deveria ser por alguém, só por si mesmas.

Às vezes, nos adaptamos aos outros pensando que é o nosso dever fazer eles se sentirem confortáveis, ainda que isso signifique NOS deixar desconfortáveis.

Podemos consertar objetos com cola, pregos ou fita, mas isso não se aplica aos seres humanos, pois ninguém aqui está quebrado. Se você me diz que amar é aceitar o outro com os seus defeitos, qualidades e crescer com o relacionamento, amadurecendo como ser humano, eu concordo. Todavia, se você constantemente quer moldar alguém para se encaixar no seu conceito de perfeição, te digo que você não ama essa pessoa de verdade.

É quase – ou totalmente – como uma arrogância pensar que você, entre bilhões de pessoas, possui o poder de “guiar” alguém para o que acha ser o caminho certo. Talvez seja um sinal de que se quer tanto “salvar alguém”, pode significar que a única pessoa que precisa de salvação seja você mesma.

As espadas estão apontadas para o lado errado

As espadas estão apontadas para o lado errado

Está tudo tão sombrio. Eu sinto a dor, a chuva, o pesar das pessoas. Elas estão cansadas de tentar, exaustas de se importar. É aquele tipo de ciclo no qual você enxerga que, por mais que se desenrole, parece que as coisas nunca sairão do lugar. É um gasto de energia sem retorno, um futuro sem luz, um problema crônico que aparentemente não tem solução, já que foi dado como natural. Há medo, ódio e uma luta silenciosa.
Eu sinto como se estivesse na arquibancada e observasse todos se matando, sem poder fazer nada. Eu temo pelo o que estar por vir e não tenho esperança em algo que já acontece. Eu não vejo saída.

As espadas estão apontadas para o lado errado.

 

 

Eu quero falar

Eu quero falar

Estou presa a tanto tempo!
Acorrentada por um fio invisível que eu sei que está aqui.
Com a minha boca tapada com uma fita isolante
que isola
o som da minha voz
e me impede de poder falar por mim.
Por esse motivo, outros estão falando em meu lugar.
Eu não quero mais isso.
Eu não gosto de não falar.
Eu quero falar.

Há marcas na minha pele,
feitas por pessoas que queriam me controlar
e dizer que eu as pertencia.
Como se o único motivo de eu existir, fosse para as agradar.
Eu tive que lutar por coisas que alguns já nasceram possuindo como um direito,
e eu me pergunto
como acham isso injusto?
Talvez
os que enchem-se de medo da isonomia,
na verdade
têm consciência do seu privilégio.
E deve doer demais saber
que o mundo não gira em torno de você.

Eu escolho.
Eu sei o que é melhor para mim.
Eu sou livre.
E se eu quiser me “prender’, vai ser por minha escolha.
Eu posso sonhar.
Eu posso me aventurar.
Eu não nasci para “servir” se eu não quiser.
Eu posso chefiar.

Não tem a ver com superioridade,
mas equidade.
Não tem como objetivo te tirar de onde você está,
e sim
te dizer
que você não tem de estar aí porque supostamente é sua obrigação
mas porque é sua escolha.

Eu quero falar
que eu não sou uma propriedade.
Eu quero falar
que eu não me visto para ninguém além de mim.
Eu quero falar
que eu não sou um prêmio, objeto ou seu entretenimento.
Eu quero falar
que eu não me importo se você não concorda.
Eu quero falar
que eu ter uma voz
não é um privilégio
mas um direito.
Eu quero falar
que jamais deixarei alguém
falar
por mim
de novo.

Ser mãe, casar e relacionamentos

Ser mãe, casar e relacionamentos

Não me enxergo no futuro, com a barriga queimando por conta do ar quente do fogão, as unhas descascadas em consequência das horas diárias lavando pratos e os meus sonhos abdicados para viver por outro alguém.

Soa egoísta?

Bem, depende da ótica que você possui.

Vai ver eu não tenha capacidade de amar a ponto de sacrificar minha existência por outro indivíduo ou abrir mão do que eu quero realizar para que outras pessoas fiquem felizes.

Parece frívolo, quase até insensível, só que e se o meu sonho maior não for casar e ter filhos?

É idiota perguntar isso no mundo de hoje, tendo em vista que temos muito mais espaço e liberdade para conquistar nosso lugar, especialmente as mulheres e as demais minorias. No entanto, ainda sim, existem pessoas que esperam o “de sempre” de nós.

Mas e se eu não quiser?

Talvez eu tenha outros objetivos que não incluam gerar pessoas.

Talvez eu tenha metas que vão muito além de passar a manhã inteira cozinhando para o meu marido, como minha mãe faz com meu pai.

Não que eu ache isso ruim, mas é que vi coisas negativas demais para conseguir tratar isso tudo de forma positiva. Só porque está estruturado e enraizado, não significa que seja certo.

O comum me assusta. O monótono, o padrão, o escritório, a vida adulta sem graça e relacionamentos baseados na conveniência. Não é isso o que me vejo fazendo e eu tenho medo, diria até pavor, de ser como os casais que me cercam. Aqueles que estão juntos porque se acostumaram e não por conta da vontade de ficarem um na presença do outro.

A visão que tenho do amor pode ruir quando eu finalmente me der conta que o homem que eu sonho não existe. E às vezes eu me vejo muito mais feliz sozinha do que com um cara do meu lado. Alguém que talvez queira me controlar, tirar minha liberdade ou qualquer coisa que GERALMENTE acontece. Não é que todos os relacionamentos sejam assim, mas é que o que eu vejo de exemplos de homens que querem exercer um poder que eles ACHAM que tem sobre as mulheres, acaba me fazendo repensar que

não quero ser controlada, não tenho a mínima vontade de aturar “proibições” do que posso ou não fazer, preciso ou não vestir. A impressão que dá é que a maioria dos caras só querem ter uma relação se puderem controlar suas companheiras, como se elas fossem propriedade.

Só que os tempos mudaram e eu constatei que a minha liberdade ou solidão “amorosa” – chame como quiser – é muito melhor do que ter que me submeter a esses tipos de relações, que me parecem a maioria e para ser sincera, não são nada saudáveis.

Amor tem que te deixar livre

e qualquer coisa que for diferente disso e queira lhe prender

não é amor.

Submetidos a se submeterem

Submetidos a se submeterem

Por que estou ignorando matemática? Eu devia estudar probabilidade, mas qual a probabilidade de eu preferir dormir pelo o resto da manhã?

Maldito Estado. Transfere a culpa da sua administração podre para seus estudantes. E então, todos nós, com mentes enjauladas e conduzidos pela a falsa meritocracia, perdemos 365 dias da nossa existência tentando obter algo que já deveria ser nosso.
Não vai entrar na minha mente que isso seja normal. Por que tenho que encher minha cabeça de conteúdo, enquanto morre tia, morre avó e a guerra explode, estou aqui, aprendendo probabilidade, pois só assim poderei ser uma boa profissional?

Eu não sirvo para isso. A arte, pelo menos pra mim, é muito mais importante que saber a estrutura de uma célula. Quero ser livre, mas insistem em prender-me.

É a prisão que vai me levar para ver a luz do dia?

Lá na terra de ninguém

Lá na terra de ninguém

Por que todos estão atirando?

Ferindo suas próprias carnes e derramando sangue em busca de paz?

Quantas bombas explodiram lá na terra de ninguém?

E quantas outras terão, até que não reste mais nada a ser destruído?

Não é só os prédios que estão em ruínas,  o mundo também é só destroços

Ele está de baixo da ganância e do individualismo do homem, que soterra todos os dias milhares de nós.

 

 

Isonomia

Isonomia

Microfone fechado.
Microfone aberto.
Está na sombra de quem um dia, fez de tua sombra.
E por anos falou, falou, sem parar para escutar.
Confundindo privilégio com lei natural.

O que incomoda é que estamos na mesma altura
ou que agora você não é o mais alto?
Sobe no caixote e diga o que lhe está entalada,
E joga na cara do mal feitor
A quem por séculos lhe calou.

Deixe subir no palanque, o dito cujo quer falar.
Não se conforma em não protagonizar
E quer tirar o protagonismo
de quem a voz silenciou.
Diga pra continuar a mexer.
Mexe a panela, mexe a sopa dos bons costumes, diz
Temendo que a muda finalmente resolva falar,
Acusa essa revolução como um meio de destruir a hierarquia
Que às suas necessidades, sempre priorizou.

Não é soberania, é equivalência.
É sobre deixar de ser só vista e apreciada
E passar a se apreciar e se ver.
É entender que mais ninguém pode falar por você.

Subjacente

Subjacente

Não vote,
Procrie.
Não fale,
Cozinhe.
Não questione,
Se ponha no seu lugar.
Não provoque
Se você sabe que é instinto.
E instinto não dá pra controlar.
Como assim não quer ser mãe?
Vai ser infeliz.

Como assim é lésbica, pansexual,bissexual?
Nenhuma família quer uma filha assim.
Te dou amor, te satisfaço e te mostro
o homem que você nunca teve.
Como assim não tem namorado?
Só com homem você vai ser feliz.
Como assim não quer casar?
Emagrece, eles gostam é das com corpão
Se continuar assim, ninguém vai te olhar.

Tem que aprender a cozinhar,
se não, não vai servir pra ser mãe e casar!
Estuda sim, tem que ter formação
mas sonhar alto?
Já ta pedindo muito, né?
Mulher não tem que ter ambição.
Compra esse perfume, ele vai amar,
porque o único motivo pelo o qual você se arruma
é pra ele olhar.

Seja enfermeira, professora, faxineira
Engenharia é curso de homem.
Nossa, batida!
Tinha que ser mulher no volante.
Que direitos o que, caramba?!
Tem licença maternidade,
Não precisam ir pro exército
E ainda tão resmungando porque deram uma olhada.
Anda de roupa acima do joelho e ainda reclama
de ser assediada.

Nas propagandas, nas novelas, em todo o lugar.
É a frágil, a virgem, a disputada por dois ou por três,
a puta porque pegou 4 naquela vez.
Tem que ser magra,
Tem que ser branca,
Tem que ser na média,
nem muito alta ou baixa.
Tem que ter cabelo liso
e lábio grande.
Tem que ser o que esperam,
tem que ser mãe, esposa e trabalhar.
Tem que acordar 5 da manhã e
ainda no ônibus, sentir os homens encoxar.
Tem que ganhar menos que o cara que trabalha a mesma coisa
e ainda ouvir gente criticar e falar
que o mundo tem equidade.
Porque bonito é ser homem, galinha, empresário,
É abaixar a cabeça, é se calar, é aceitar.
Feio é pedir igualdade.

Pra você vestibulando

Pra você vestibulando

Eu não sou um número. Eu não sou uma nota. Eu não sou uma questão certa e muito menos uma errada. Eu não sou o concorrente de ninguém, porque o meu único adversário sou eu mesmo. O meu futuro sou eu quem faço e não importa o que acontecer nesses 2 dias, naqueles 2 dias ou em outros dias, tenho que ter a consciência que posso e sou capaz de qualquer coisa. Posso se eu querer e tentar fazer. Sei que pode ser injusto, desigual, medido em uma meritocracia que não existe, mas é um mal que necessito. É um mal que me julga por coisas que não definem se serei bom profissional, mas é o que eu tenho. E o pior disso tudo é que tem gente que nem pode ter. Gente que nem pensa nessa possibilidade ou a considera, porque disseram que não tinham chance nenhuma. Mas tenho sorte, nós temos sorte; Temos alguém que acredita no nosso potencial, uma pessoa que investe no futuro em que podemos chegar a ter. E mesmo que esse alguém seja eu, pelo menos há alguém.

Quando eu chegar lá não vou pensar no que não sei, no que deveria ter estudado e não consegui, porque estava exausto e esgotado. Não irei me cobrar e me condenar se não acertar uma coisa que eu sabia, porque tenho conhecimento da minha capacidade. Não irei dar ouvidos à pessoas que me dizem e condenam-me por ter ou não ido bem, porque só eu sei do meu esforço, do que posso fazer e das minhas dificuldades. Afinal, a vida não acaba porque nós falhamos, pelo o contrário. Quando falhamos é só a vida dando uma oportunidade de fazer diferente.

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