Daqui do meu castelo

Daqui do meu castelo

Eu sou da realeza. Nasci em um berço enfeitado de mantas de tecidos brancos e de seda. Meu lençol protegia-me do mundo como uma bolha e minhas meias impediam-me de ter frio. Também haviam passarinhos acima de mim, pois eles eram atraídos pela a luz. E estava sempre claro, até quando lá fora escurecia. Eu só via nuvens em minha volta e pequenos brinquedos. Era tudo tão lindo e perfeito, pois a janela estava sempre fechada. Algumas vezes, no meio da madrugada, gritos e choros ecoavam. Eu tinha certeza que eram os anjos lá fora. Pelo menos, foi isso o que meus pais falaram.

Um dia, minha meia foi tirada. Eu passei a sentir frio nos pés durante a noite. Depois disso, as nuvens deram lugar a uma cor pastel sem graça na minha parede. Os meus passarinhos voaram – segundo mamãe – e tornarem-se um abajur sem graça, cujo o objeto fica cima de uma superfície de madeira com puxadores. Além disso, a fresta da janela agora encontra-se aberta e eu ouço os gritos mais fortes. Entretanto, minha avó falou que eram só os anjos me abençoando.

Está mais escuro e a janela fica o tempo todo aberta. Os choros não param e os pedidos de ajuda,  muito menos. Os meus brinquedos estão sempre dormindo agora – meu irmão me disse – e o meu lençol está sempre lavando. Eu o imploro de volta, mas ninguém me escuta. Eu grito pelo os meus brinquedos, mas todos me ignoram.

Até que um dia, entediado e com minha cabeça latejando, eu resolvi deixar de lado todos os papéis a minha volta e pedi aos anjos uma ajudinha. Eu sabia que eles me ajudariam. Eles tinham que ajudar.

Então, com muita dificuldade, subi na minha cama para olhar o que tinha na janela.

E naquele momento, eu vi a visão mais assustadora da minha vida.

Haviam milhões de crianças, assim como eu, vestidas de cinza e com as costas encurvadas, chorando e implorando para os anjos trazerem seus brinquedos e lençóis de volta.

 

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Tumblr
Comments are closed.