E eu, que nem te amei? 

E eu, que nem te amei? 

Número 1. Ele era engraçado, folgado,  tinha umas bermudas de surfistas e uma aparência legal. Para alguém de 12 anos,  é claro. Eu fingia que o odiava e ele fazia de conta que não curtia andar de mãos dadas comigo. Isso tudo, obviamente, para manter nosso romance ás escondidas. Eu, ingênua e avoada, salpicada por uma pitada de autoritarismo infantil. Ele, malandro e charmoso, acompanhado de um certo tempero de bad boy, do cara que precisava ser salvo.

E cabia a mim, a menina mandona que criava regras para o pique-pega, tirar um pré-adolescente de seu limbo. Foi disso que tentei me convencer, pelo menos. Até ele desaparecer e voltar 7 anos mais tarde, pedindo uma foto para ver se valia a pena reviver os velhos tempos.

Me pergunto se não era eu quem devia ser salva.  Dele.


Número 2
. Baixinho,  magro e desengonçado. Três adjetivos que se encaixam nos esteriótipos – escrotos,  diga-se de passagem – para uma rejeição imediata no Ensino Médio. No entanto,  para o meu eu de 16 anos, era apenas mais um menino crianção que, lá no fundo, tinha um lado incrível escondido.  Lado esse, que ajudaria a provar minha tese imaginária. Uma tese que dizia claramente; ele precisa ser salvo da opressão social, desses amigos bostas e da necessidade de aceitação dele. E para todo veneno, há o antídoto. E eu era esse antídoto.

 Com graça e falso carisma, conquistei os amigos dele. Comecei a ouvir linkin park – o único ponto positivo disso tudo, aliás – e tentei até assistir uns vídeos de batalha de rap no Youtube.

Após desenvolver uma amizade interessante e construída por dois opostos – o perdido e a menina salvadora – todo o processo foi por água abaixo. Ele devolveu o amor com ignorância, e,  do dia pra noite, não olhou mais para a minha cara – até o carnaval do ano seguinte, quando fingiu que não foi um completo babaca.

Número 3.  Baseado em meu gosto por caras estereotipados pela a sociedade,  o terceiro menino era a personificação do não atraente, o não desejado. Entretanto,  isso não parecia realmente me incomodar. Não foi um processo mais rápido que os outros, mas aconteceu.

E mais uma vez,  mediante ao meu desejo de querer consertar pessoas – mesmo que não precisassem ser consertadas – eu desenvolvi uma queda por uma pessoa improvável. E essa pessoa improvável estava por perto, ria comigo e fazia parte da minha convivência como qualquer um ali.

Não havia sequer uma possibilidade de ser recíproco, mas minha mente decidiu que eu deveria gostar dele e tentar fazê-lo se abrir com alguém, porque no fundo, queria ser responsável por aquilo.

O final foi tenebroso e cheio de mágoas. Minhas,  é claro. Até por que, não acredito que um dia ele realmente deu a mínima pra mim.

Eu queria salvá-los,  consertá-los e mudá-los. Tinha a vontade interna de ser aquela garota que vai mudar o cara e fazê-lo enxergar que é um babaca. Queria poder apertar seus parafusos, como se pessoas fossem bonecos.  Queria ter a possibilidade de receber amor, então teria esse amor de volta.

Eu achava que havia algo de errado com eles – e talvez houvesse, de fato – mas não enxergava que não cabia a mim moldar indivíduos só para que se encaixassem em meu ideal perfeito. Afinal,  isso não é amar, isso é não se amar.  Isso,  meus amigos, é viver de amores inventados –  como Cazuza.

É procurar desesperadamente o amor dentro de si e não achar.

É fingir que não há vazio, mas ao mesmo tempo, tentar ocupá-lo com quem quer que seja.

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