Estamos morrendo todos os dias

Estamos morrendo todos os dias

Estou sentada neste sofá verde musgo, de frente para a minha avó que agora dorme tranquila em uma cama alugada de hospital. Dizem que quando uma pessoa está sofrendo profundamente, você pode sentir isso só de olhá-la. No entanto, tudo o que enxergo é serenidade e resignação. Uma aparência de alguém que sempre pareceu de ferro, mas que agora se assemelha a um vidro prestes a ser despedaçado. Eu pensei que ela era feito de titânio.

Estou sentada de frente para ela e, dessa vez, seus cabelos pretos com mechas brancas parecem mais vivos do que nunca. As mãos enrugadas passam por cima de duas cartas do uno, planejando a próxima jogada. Meu corpo treme, porque sei que minha avó vai acabar com minha estratégia e me vencer pela a 7ª vez em 2 horas. Se não fosse o sorriso bem humorado ao finalizar a partida, eu nunca teria adivinhado que ela havia me deixado ganhar.

E então eu estou chorando pela a noite, me perguntando o que tenho de fazer para fazê-la se mexer e me vencer no uno novamente. O que tenho de fazer para voltar a ter 5 anos de novo e observá-la enquanto cozinhava. O que tenho de fazer para enrolar doces de São Cosmo e São Damião com ela apenas para comer os doces que sobraram no final.

O que tenho de fazer para não te ver ir e ainda poder ouvir você rindo dos palavrões da minha mãe.

Você nem se foi ainda, mas eu já sinto sua falta.

Eu pensei que fossemos imortais, mas estamos todos morrendo.

Compartilhe!
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Tumblr
Comments are closed.